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    segunda-feira, 28 de maio de 2012


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    quinta-feira, 17 de maio de 2012

    Amizade Clerical


    Por Padre Léo Trese

    Ao pendurar o telefone, penso que a amizade entre os sacerdotes é não a menor graça que Deus lhes concede. O padre Ted acaba de convidar-me para o encerramento das "Quarentas Horas" na próxima terça-feira. Deo Volente, se Deus quiser lá estarei.

    Não devo perder essas ocasiões. Gosto tanto da camaradagem e das amistosas implicâncias... dos atrozes insusltos que escondem afetos sinceros... dos elogios brincalhões que tanto nos ajudam a manter os pés no chão!

    Estará lá a habitual quadrilha: David, espirituoso e falador, o antídoto mais seguro do mundo contra a melancolia; Don, vivaz e tão facilmente inflamável, que contestará acaloradamente o meu direito de tomar de empréstimo, por falta de troco, uma moedinhas da bandeja, mas que daria o seu último centavo se eu precisasse; Pat, calmo e ponderado, sobre cujo os ombros se pode chorar a dor que nos oprime; Ray, o tranquilo Ray que deixa tudo para o dia seguinte e cujo o lado todas as preocupações parecem insignificantes e tolas.

    Todos eles e alguns mais estarão ali, levando cada um a sua parcela de contribuição para essa inigualável fraternidade sacerdotal, desconhecida do resto do mundo.

    Haverá garrafas, gelo e copos no aparador. Tomaremos um aperitivo antes de nos sentarmos a mesa para saborear o triunfo culinário anual da governanta. Com um senso de irmandade, que nunca é tão forte como nesta refeição das Quarentas Horas, pensarei de novo na grande semelhança entre este jantar e os antigos ágapes.

    De estômago satisfeito, passaremos a sala de estar, onde a conversa terá seus altos e baixos, indo e vindo entre o trivial e o sério. Trocaremos impressões sobre planos de férias, sobre a difícil situação de algum casal, sobre prováveis nomeações diocesanas ou construções em andamento; enfim sobre tudo aquilo que constitue o mundo sacerdotal.

    Depois, quando faltarem dez para as oito, iremos vestir a batina e a sobrepeliz, e avançaremos em tropel para sacristia.
    Tomaremos a seguir os nossos respectivos lugares no presbitério, ajoelhando-nos no duro pavimento porque não haverá genuflexórios suficientes. O padre Joe ou talvez Jim dirigirá a recitação do terço.O missionário pronunciará o seu sermão, talvez um pouco mecanicamente, por já o ter repetido tantas vezes. Jerry, o cantor perpétuo do grupo, entoará o hino e nós responderemos em coro ligeiramente desafinado de tenores, baixos e barítonos.

    Desceremos depois pela nave central, levando Aquele a quem por vezes seguimos tão tropegamente. Deixaremos cair um pingo de cera nas nossas batinas, avançando de forma irregular pela nave estreita, enquanto os homens do "Santo Nome" deslizam pelos corredores laterias.

    Seremos um grupo variado de cabeças pretas e grisalhas (ou calvas); altos e baixos, gordos e magros. Mas todos vibraremos com a mesma expressão de fé e pensaremos nos ausentes, no rebanho que ficou em casa, perguntando-nos nesse meio tempo se fizemos por eles o melhor que sabíamos e podíamos.

    Experimentaremos um inusitado sentimento de compulsão pelas nossas omissões e regressaremos subindo os degraus do altar com uma renovada promessa de lealdade a Deus, de quem somos naquele momento, tão literalmente, a Guarda de Honra.

    E quando Ele se erguer nas mãos do diácono para nos abençoar, pedir-lhe-mos que a sua benção não se detenha nas paredes desta igreja, mas que os seus olhos misericordiosos se estendam até o pequeno rebanho confiado a cada um de nós, na nossa fraqueza, temos feito tão mal.

    A invocação Bendito seja o seu Santo Nome ressoará tão fortemente que será capaz de fazer tremer as velas nos seus castiçais, e nos retiraremos para a sacristia momentaneamente subjugados pelos pensamentos que acariciamos e pela graça que nos tocou o coração.

    Mas em breve retomaremos o fio da conversa e um jogo de cartas na casa paroquial arredondará o dia.

    Talvez alguns dos que nos viram há meia hora, reunidos em torno do altar, se surpreedam de nos ver agora reunidos em torno da mesa verde.....
    Mas, observando as caras que me rodeiam, esquecidas por momentos dos cuidados que lhes pesavam hoje e que voltarão a carga amanhã, recordarei a sua obstinada perseverança e as suas vitórias sobre si mesmos, ano após ano; a sua lealdade, que sempre foi mais forte que a sua fraqueza; o seu amor escondido, que tem sido muito mais forte que as suas falhas.

    Recordando tudo isso, sentir-me-ei outra vez orgulhoso por ser um deles- orgulhoso e humildemente agradecido. E, coisa estranha, seria certeza de que Cristo está no meio de nós.

    Já será meia noite quando voltar para casa, provavelmente cheirando a cerveja. Estarei bem consciente de não ter passado a tarde em companhia de santos; caso contrário, não me teria sentido tão" em minha casa" entre eles.

    Sei perfeitamente que seria muito melhor que todos nós fossemos santos e tivéssemos passado a tarde em piedosa conversa e em abstemia simplicidade.Mas não o somos nem nos propomos se-lo com toda energia necessária.

    No entanto, há na nossa amizade uma outra espécie de graça. Pela vida fora, os meus amigos sacerdotes tem sido a nuvem luminosa durante o dia e a coluna de fogo durante a noite que, pela vontade de Deus, me tem ajudado a avançar passo a passo.

    Agora, enquanto pego o Breviário para não deixar para trás as leituras e as Laudes, lembro-me do padre Zeke.O padre Zeke nunca simpatizou com reuniões sacerdotais nem com a companhia dos seus irmãos no sacerdócio. Dizia que bebiam muito, que falavam demais, que não tinham consciencia da seriedade da sua vocação.

    Pois bem. O padre Zeke anda agora em mangas de camisa e é pai. Talvez viesse a fraquejar de uma maneira ou de outra. Mas eu vou oferecer o Breviário por ele e, ao mesmo tempo, em ação de graças a Deus pelos meus amigos que me tem ajudado a permanecer onde estou.
    Fonte: Vaso de Argila
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    segunda-feira, 7 de maio de 2012

    Os Movimentos de Apostolado



    Por Padre Leo Trese

    15:00

    "A escrivaninha está livre de correspondência. Mais precisamente, as cartas foram lidas e arrumadas junto com as que não tiveram resposta. Se não me espevito e respondo com brevidade a algumas delas, não me restará um só amigo neste mundo. Mas agora preciso dar uma olhada no Novo Testamento. Margie está para chegar.

    Foi-lhe confiada a terefa de comentar o Evangelho na reunião semanal de dirigentes da Ação Católica e combinou vir às quatro para que a ajude a preparar-se. Depois dela virá Jean, as quatro e meia, para falarmos do Corpo Místico.

    Há uma coisa de que estou certo: a Ação Católica suscita dentro de mim o mesmo sentimento de fracasso que tantas outras iniciativas boas que vicejam na paróquia. O apostolado da oração, a cruzada do Rosário, a renovação litúrgica, o movimento rural, as escolas de ação social inflamam a minha imaginação pelo seu bem potencial, mas depois deixam-me desiludido ao encontrar- me diante da compacta lista de encontros e obrigações anotadas no meu caderno.

    É muito fácil dizer: " Deixemos de lado o menos importante". Mas o que é menos importante? Eu não posso abandonar os doentes, membros sofredores de Cristo. Não posso esquecer as crianças da escola, que são o meu rebanho e o dEle.

    Não posso ser superficial quando instruo os conversos. Não posso atirar para um canto os que vem, preocupados e tristes, pedir-me um conselho. Nem mesmo posso esquivar-me à administração material da paróquia, uma vez que os consertos e reparações, as compras e a contabilidade também se relacionam, embora indiretamente, com a salvação das almas.

    Talvez pudesse deixar os movimentos de apostolado entregues a si próprios, mas, sem um sacerdote, depressa pereceriam, e eu perderia contacto com os meus adultos.

    É um verdadeiro dilema, um dilema em que as coisas que gostaria de fazer se opõem ao que ao que devo fazer. Mas, ao encará-lo de frente, a solução aparece-me nítida e afiada como espada que cortará o nó górdio em que estou envolvido.

    Não é uma solução nova, certamente. Mas é uma solução que facilmente se ignora e se contorna na hipertensa atividade da paróquia moderna. É a mesma solução que São Bernardo dava ao Papa Eugenio, quando o advertia do perigo de se dar completamente aos outros que nada restasse para si próprio; o perigo, diríamos hoje, de nos exaurirmos.

    A solução é : maior santidade pessoal. À primeira vista, parece uma solução difícil: é muito mais fácil trabalhar os outros do que trabalharmos a nós mesmos. Mas é a única solução para um sacerdote acossado, que vê tanto que fazer e tão pouco tempo disponível para faze-lo. Ainda está por nascer o movimento de apostolado que seja um sucedâneo da santidade sacerdotal.

    Em contrapartida, a santidade sacerdotal poderá substituir qualquer outra coisa, em caso de necessidade.

    Precisamos de dirigentes? É Cristo quem chama os seus dirigentes, e eles ouvirão o seu apelo e o acatarão quando Ele se fizer reconhecer na vida de um sacerdote santo. É o amor a liturgia que procuramos? O povo amará a Missa e aproximar-se-a dos sacramentos quando se evidenciar em cada gesto do celebrante um profundo amor e uma fé ardente. É justiça social que queremos promover urgentemente, uma caridade inflamada que queremos suscitar? Certamente a palavra de Deus não poderá sair do coração transbordante de um sacerdote verdadeiramente " à medida do coração de Cristo", durante cinquenta e dois domingos por ano, sem acender uma centelha nova nalgum coração renovado.

    ...Sei tudo isso. Sei também que é perfeitamente inutil escudar-me na frase feita "Padre de sacristia" se, por padre de sacristia, queremos dizer "padre de poltrona".  Mas se, por padre de sacristia, entendo um padre com um profundo amor a Cristo nos seus mistérios, um padre que passa mais tempo na Igreja do que em ler o jornal e a revista da semana - então, sim, poderei falar de um homem que nos fins das contas faz mais por Cristo do que muitos cujos os nomes aparecem no semanário diocesano.

    Esta lógica esmaga-me. Prevejo a conclusão... mas se se impõe que eu escolha entre mais oração e sacrificio, por um lado e mais desapontamento e fracasso por outro, talvez conviesse que os meus joelhos trabalhassem um pouco mais e os braços um pouco menos.

    Bem, Margie está a porta. É necessário ajudá-la a preparar o evangelho da Missa de Pentecostes. "Se alguém me ama...meu Pai o amará, e viremos a Ele e faremos Nele a nossa morada...Não se assuste o vosso coração".

    É precisamente isto oque diz, e está tudo muito claro.

    Fonte: Vaso de Argila.

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    terça-feira, 17 de abril de 2012

    Caridade


    Por Padre Leo Trese

    14,30

    Terminaram as confissões das crianças, e o ônibus da escola espera com o motor ligado a preciosa carga, ruidosa e inquieta. Enquanto volto ao trabalho de abrir a correspondencia, o envelope já familiar da Associação das Missões de São Papagus olha para mim como cachorrinho abanando a cauda.

    Levará um afago na cabeça ou um pontapé? Possivelmente, o afago. Não há dúvida de que quase todos os pedidos que terminem com um "vosso em Cristo" farão sair ao menos um dólar do bolso de um sacerdote.

    Mas a Associação de São Papagus é um pouco diferente. Tem aqui no país e lá fora várias centenas de missionários que precisam de igrejas e de auxílio para a subsistência de freiras e catequistas, e de fundos para hospitais e dispensários. Contam com um pessoal, mas precisam, além disso, de meios para que esse pessoal renda.

    Leio o último folheto que acabam de mandar-me, em que descrevem as suas ambiciosas tentativas na batalha pela conquista das almas, e experimento no meu íntimo um sentimento de vergonha ao pensar, confortavelmente instalado no meu escritório, como é fácil dedicar-se a almas que não opõem resistência alguma em serem salvas.

    A vergonha chega ainda mais fundo. Tem as suas raízes na minha persistente obstinação em fechar os ouvidos às palavras do Senhor: "Vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e depois vem e segue-me".

    A sua voz é suave como a brisa, mas Ele quer ser escutado. Não possso alegar ignorancia ou inadivertencia quanto a necessidade de desapego dos bens deste mundo. A fórmula evangélica de perfeição é bastante simples e clara. Se a ignoro, o risco é todo meu.

    É claro que não fiz voto de pobreza. Mas Cristo não fala de votos. Fala de nos conformarmos voluntária e cordialmente com Ele. É também claro que poderia ir para o céu limitando-me a observar os Mandamentos, tal como Cristo disse. Mas eu não me ordenei apenas para alcançar o céu; poderia cumprir esse mínimo sendo um pedreiro com mulher e filhos ou outra coisa qualquer. Preferi um lugar que apontava para uma mira mais alta: um certo grau de santidade, um certo grau de amor e intimidade com Cristo.

    "Vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres". Tal como o refrão de Corvo de Poe, estas palavras ressoam continuamente aos meus ouvidos, enquanto vejo a lista das necessidades dos missionários. Com três mil dólares poderiam construir uma capela. Três mil dólares foi exatamente a quantia que paguei por uma casa na praia, que não chego a ocupar nem quinze dias por ano, enquanto Cristo espera em Uganda por um teto e um altar.

    Para custear a bolsa de estudos de um seminarista indígena, bastariam quatrocentos dólares; foi mais ou menos o que gastei com acessórios para o meu novo carro. Agora vou sentado em estofamento de seda e escuto deliciado Bing Crosby, enquanto de Dacca me mendigam auxílio para uma vocação.

    Duzentos dólares seriam suficientes para abastecer um dispensário em Tanganica; foi o que paguei por uma máquina de projetar, um brinquedo caro de que precisava tanto como um pato precisa de guarda-chuva. Bem , mas posso projetar slides coloridos, ainda que os missionários andem faltos de quinino e penicilina.

    Não julgo ser cobiçoso. Pelo menos nunca me ocorreu acusar-me de avareza na confissão. Mas o demônio tem seus métodos próprios para enredar-me no cifrão do dólar. Tenho que garantir a minha velhice: "não quero ser um peso para ninguém". Com isso faço um corte de 90% no valor da parábola de Cristo sobre os lírios do campo. E vejo a minha conta corrente no banco engordar de dia para dia.

    Depois, está a viagem a Europa, para a qual venho poupando há tanto tempo. Quero conhecer Lourdes, Fátima e Roma antes de morrer. Talvez Nossa Senhora viesse a ser mais venerada se se pudesse dedicar-lhe uma capelinha alguma aldeola chinesa - mas nesse caso...adeus viagem a Europa.

    Poderia esperar e contentar-me com o sonho de ver a Europa do céu, que é um mirante nitidamente superior, mas a gente tambem precisa ter algum projeto nesta terra e divertir-se um pouco. Pelo menos se se quer tomar o Evangelho com um certo jogo de cintura...

    "Vai e vende tudo o que tens e dá...

    Não haverá ninguém que mude o disco, por favor?

    Suponhamos que gosto de apalpar a carteira, bem recheada, quase tanto como um pai de família que tem de alimentar seis crianças esfomeadas; suponhamos que me encho de satisfação jogando na mesa do restaurante uma nota de vinte dólares para pagar o jantar, enquanto acaricio entre os dedos um cálice de licor; suponhamos que desfruto andando de carro mais de que de onibus; não há pecado algum em nada disso.

    Não estou acumulando nenhuma fortuna. O meu testamento não escandalizará ninguém quando o abrirem. Nunca deixo de atender pedidos de dinheiro como estes. Contribuo sempre com um dólar, as vezes com dois e até cinco.

    "As migalhas que caem das mesas dos ricos..."

    Que é isso?

    Uma nova voz que se junta as palavras penetrantes que tenho tentado afogar? É o Evangelho que procura encurralar-me, sem me deixar um cantinho livre onde me possa defender: "Vai, vende tudo o que tens..., e tereis um tesouro no céu...,vem e segue-me...,não tecem nem fiam..., recebereis cem por um..."

    Está certo! Está certo! Sei que não posso dizer ao Evangelho: "Cala-te".

    Tentarei fazer-lhe caso. Talvez algum dia me surpreenda gratamente com o resultado

    Fonte: Vaso de Argila

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    quarta-feira, 14 de março de 2012

    Confessando Crianças.


    Por Padre Leo Trese

    14,15

    O resto da correspondência terá de esperar. É o momento de ir confessar os garotos e para isso precisarei de uma hora e quinze, pois são perto de quarenta.

    Dois minutos para cada um não me parecem muitos, mas ainda me posso lembrar do tempo em que perdia a paciência quando levava uma hora a confessar por volta de sessenta.

    Era uma época em que celebrava a Missa com tanta velocidade que quase fazia vento com as mãos ao dizer o Senhor esteja convosco; em que, ao dar Comunhão, dizia o Corpo de Cristo de qualquer jeito; em que as paredes do confessionário estremeciam como um tambor com as minhas entradas e saídas nas atarefadas tardes de sábado.

    Talvez seja um pouco exagerado, mas as gerações de hoje me consideraria um verdadeiro Fittipaldi. Nunca compreenderei como fui induzido pelo demônio a admitir que havia algo de admirável na pressa. Mas é fácil compreender por que queria ele que eu pensasse assim. Satanás não é capaz de impedir o fluxo de graça que os Sacramentos derramam, mas tenta neutralizar uma parte da sua fecundidade, fazendo com que sejam administrados por mãos descuidadas.

    As confissões, por exemplo. Não sei quando percebi pela primeira vez que não devia ser como uma máquina expedidora de Sacramentos; talvez tenha sido por uma chispa de graça na meditação da manhã. De qualquer modo, iluminou-se em mim a idéia de que " médico de almas" e "guia espiritual" são mais de que meras frases de uma prédica sobre o Sacramento da Penitencia.

    Evidentemente, nunca deixei de admoestar com severidade um penitente que faltasse sistematicamente à Missa ou que tivesse andado com a mulher do próximo. Mas, quando se tratava de almas já de si piedosas, era fácil ouvi-las numa meia sonolencia, enquanto perguntava a mim mesmo se chegaria em casa a tempo de ouvir a transmissão de um jogo de futebol ou pensava nova idéia para o próximo sermão dominical.

    Enquanto me ajoelho diante do altar e recito o Vinde Espírito Santo, penso se não haverá no céu almas que goza de uma grau a menos de glória por se terem confessado comigo. E fico com calafrios ao ocorrer-me que talvez possa haver alguém que se tenha condenado por eu ter cochilado quando precisava ter lhe dito umas palavras de salvação.

    Um movimento de passos as minhas costas indica-me que os meninos me estão esperando. Mais uns segundos, enquanto renovo a minha resolução de dar importancia aos seus pecadinhos. Atrás de mim estão quarenta santos em potencial. A graça de Deus moldará as suas almas, mas a minha mão tem que sustentar o conzel que lhes dará forma. Nunca tão eloquentemente como agora pode um coração de um sacerdote falar e ser ouvido pelo coração de uma criança.

    Dez palavras agora valem mais do que cem ditas na aula ou mil no púlpito.

    Esqueceram diariamente as orações da manhã? Uma palavra sussurrada sobre o valor do oferecimento das obras matinal, uma visão rápida de um dia desperdiçado, como um dever de casa feito com uma esferográfica sem tinta. Furtos infantis? A infancia pobre de Jesus, sem brinquedos nem bombons, será o melhor remédio. Irritam-se? Então era só brincadeira que voce dizia a Jesus, na Via-Sacra, que gostaria de ajudá-lo a levar a cruz?

    A primeira vez que comecei a dar conselhos aos pequenos, a Irmã afligiu-se....Demoravam tanto a confessar-se (quase dois minutos) que achou que deviam estar-se enganado no ato de contrição. Mas saíam tão sorridentes que não pode resistir a curiosidade.

    Perguntou a uma menininha o que tinha feito durante tanto tempo. "O padre esteve contando-me uma história", foi a resposta. Agora, enquanto me soergo e olho pelas cortinas, vem-me ao pensamento que talvez a piedade estéril e anemica dos "bons catolicos" se deva as confissões rotineiras e que se habituaram desde crianças.

    Sorrio na escuridão, imaginando o choque que experimentaria uma dessas penitentes que se acusam todas as semanas de "distrações nas orações", se lhe perguntasse como quem não quer nada: "Gostaria de ser santa?" Talvez o tente no próximo sábado.

    Deve haver sacerdotes que recomendam a oração mental aos seus penitentes, mas eu nunca fui um desses. Agora penso nisso, talvez seja uma boa idéia. Pergunto-me se haverá algum livro que se adapte a vida dos leigos e que possa fazer por eles o que as meditações de Chaignon fazem pelos padres.

    Um livro assim, baseados em princípios sólidos, ajudar-me-ia a ir eliminando escandalos e depois se envolvem em injustiças sociais, discriminações raciais ou intrigas políticas.

    Mas vejamos, Leo! Não são as confissões das crianças que te ocupam agora? Enquanto abro a porta do confessionário, faço um último esforço por afastar do meu espírito qualquer outra preocupação.

    Um dos garotos dirá: "Fui ao "banheiro" na rua" . E os atos de contrição serão variados e confusos: "Estou muito pouco triste pelos meus pecados" ou "Preza-me Senhor de Vos ter ofendido".

    Contudo, no meio de tudo isso, nunca me sentirei tão unido ao meu Mestre como neste momento.

    Cristo e seus pequeninos! Senhor, ajudai-me a levá-los até junto de Vós.

    Fonte: Vaso de Argila

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    domingo, 26 de fevereiro de 2012

    A Obediência



    Por Padre Leo Trese

    Aqui, em pleno campo, o carteiro só passa uma vez por dia. Ao entrar no escritório, encontro um molho avantajado de correspondencia: cartas, pedidos de certificado de batismo, documentos para um casamento e outras coisas do gênero.

    Animado da maior boa vontade, sento-me à escrivaninha para le-la e avaliá-la; cada maço tem o seu feitiço próprio, que nunca parece desvanecer-se. Quer contenha boas ou más notícias, ou mesmo nenhuma, cada carta recém-chegada é como uma aventura.

    Esse envelope elegante, escrito a mão e sem remetente, terá dentro um cheque enviado por alguma alma generosa? Ou será um pedido de certidão de um casamento que nunca se registrou nos livros da minha paróquia? Até estas cartas abertas, franqueadas com vinte centavos e o carimbo de "Impressos", tem o seu encanto, embora eu saiba que se trata do ardil de um intrujão qualquer.

    Quase no fim do maço, vejo o timbre da Cúria diocesana. Que será? Outra Coleta? Outra ordem? Outra?... Ah, sim, é outra reunião de parócos marcada para a quarta -feira próxima, as duas da tarde. Não posso reprimir um resmungo de impaciência. Significa cento e vinte quilometros de ida e volta, um dólar de gasolina e uma tarde perdida, tudo para escutar a leitura de um papel que nos poderia ter enviado pelo correio.

    Será que os bispos não podiam ser um pouco mais práticos?

    Mas...um momento! Não foi na meditação desta manhã que refleti sobre a virtude da obediência e a vontade de Deus? Não assenti interiormente a princípios tão fundamentais como o de que " a obediencia vale mais do que o sacrifício" e de que " não se faça a minha vontade, mas a Tua?". Não concordei de todo o coração em que é o espírito de obediencia, e não a submissão meramente externa, que constitui a perfeição cristã e sacerdotal? Com certeza.

    E senti-me completamente satisfeito comigo próprio, pensando que uma das alegrias da visão beatífica será a sublime e visível harmonia entre a vontade divina e a vontade humana de Cristo, e entre a vontade de Deus e a vontade criada de todos os anjos e santos.

    A minha fantasia magicava sobre o inferno - lembro-me agora - considerando-o como um lugar em que o elemento principal é o conflito de vontades. Cheguei até a imaginar uma cena em que escapava de uma tentação porque dois demonios rivais estavam em desacordo, empenhados ambos em que eu pecasse segundo o método de cada um.

    Vieram depois as resoluções tão facilmente formuladas (sem ter em conta a graça para nada): não desperdiçar mais energias nem tempo a perguntar-me por que a Igreja exige isto ou insiste naquilo: não resmungar porque os ternos escuros fazem transpirar no verão nem invejar a batina branca dos missionários; não lamentar as dores nos pés durante as Vigílias pascal.

    Esta foi a minha resolução: ser obediente até nas menores coisas, mesmo que se trate de dar o ósculo da paz nas missas solenes, coisa que é contrária a maneira de ser americana.

    Sim, a minha resolução será completa. Abrangia tudo: cânones, rubricas, decretos. Incluía também a vontade do bispo, quer se manifeste como uma ordem ou um desejo, quer me fosse transmitida pessoalmente ou por meio dos seus delegados; tudo seria cumprido por mim sem retrucar nem murmurar.

    Naturalmente, a minha presunção e o meu desejo de ficar por cima dir-me-iam que, se fosse eu a dirigir a diocese, saberia faze-lo melhor do que aquele que fora escolhido pelo Espírito Santo que os escolhe tendo em vista unicamente proporcionar aos discípulos de Cristo a necessária cruz de cada dia.

    Seja como for, não pude livrar-me da ineroxável conclusão: todas as faltas de obediencia são uma barreira entre mim e Cristo, uma obstrução à graça já na sua fonte.

    Mas vejo agora que esta obediencia interior tem as suas dificuldades.

    Há um conflito inevitável entre a minha agudeza de espírito e a obtusidade das Congregações romanas, que decidem tão futilmente sobre assuntos de que não tem a menor experiência. Há a inevitável convicção da superioridade da minha inteligencia, que tem que submeter-se à inépcia romana.

    Por outras palavras, há o orgulho, esse miserável patife de mil caras que, no momento crucial, habilmente encorajado pela preguiça, conspira com ela para destruir o espírito de obediencia, tendo entretanto o cinismo de deixar intacta a falsa envoltura da obediencia externa.

    Na quarta-feira da próxima semana, haverá, pois, uma reunião as duas da tarde. Muito bem, ali estarei; é Cristo que me convida, e eu não posso recusar-me a ir. Cristo substitui-me-á na minha ausencia, fazendo infinitamente mais com a sua graça do que tudo aquilo que eu conseguiria nessas horas.

    Enquanto renovo as resoluções tomadas esta manhã, reconheço que a obediencia é uma virtude inspirada pelo Alto. Se eu conseguir na prática, tornar minha a vontade de Deus, terei um povo obediente que me seguirá e serei seu verdadeiro pastor. E, resolvidos os conflitos dentro do meu coração, conduzirei em paz e harmonia o meu rebanho.

    Fonte: Vaso de Argila

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    sábado, 11 de fevereiro de 2012

    Guarda dos Olhos


    Por Padre Leo Trese

    12,00

    " Ao primeiro toque do Angelus terminou o exame de consciencia, que hoje foi um pouco mais breve. Mais breve, ou não, tive um ou dois minutos bastante desconfortáveis.

    Custos oculorum - guarda dos olhos - é o tema do meu exame de consciencia, um tema que adotei por simples formalidade, certo de que o assunto quase não me dizia respeito. Mas essa minha certeza debilitou-me consideravelmente. Esta questão de exame de consciencia tem o estranho dom de fazer-me descobrir pedras no caminho e acabar por demonstrar que são enormes pedregulhos.

    Não tinha pensado nisso antes, mas agora tenho que confessar que até os meus olhos, se não tomarem cuidado, podem serem apanhados pela isca dos vistosos anúncios de uma revista. Para não mencionar...,sim, para não mencionar uma infinidade de coisas. Uma infinidade de coisas que poderíamos levar para a brincadeira (e de fato levamos), mas que não parecem tão engraçadas ao meio-dia, quando se está ajoelhado diante do Sacrário.

    Não há dúvida de que tenho matéria para mais alguns exames. A guarda da vista levar-me-á a outros assuntos. Porque o espírito humano (ao menos o meu) pode ser um impostor. É capaz de descobrir um círculo quadrado e conciliar sutilmente teorias e práticas contraditórias. É capaz de nos dar a sensação de que resistimos perfeitamente, quando um juiz honesto nos demonstraria que a nossa resistencia chegou tarde demais.

    Colocado entre a espada e a parede, nem assim quererá assinar uma rendição honrosa; procurará desculpar-se até o fim e confessará: "Já que Deus me considera culpado, reconheço a minha falta", em vez de dizer: "Porque Deus sabe que eu sou culpado..."

    Não acho que tenha muitos espíritos enganadores como o meu.

    É capaz de se envergonhar muito - envergonhar-se, não arrepender-se - quando uma queda lhe mostra toda sua fraqueza, e no entanto, chegar a estúpida auto-confiança de pensar que da próxima vez se comportará como uma rocha inabalável.

    Enquanto puderam inventar alibes, não quererá enfrentar sinceramente a realidade, tal como a meditação e o exame nos fazem ver. O "muito ocupado" e o "amanhã", sendo desculpas suficientes.

    Uma séria meia hora de joelhos podia ajudar-me a ver como evidente aquilo que, no fundo, é uma ocasião de pecado que eu há muito tempo me nego a admitir; mesmo uns 15 minutos numa igreja silenciosa poderiam abrir-me os olhos e mostrar-me como tantas vezes tenho andado perto do mal, assobiando tranquilamente, como se não soubessem que tinha entrado em território inimigo.

    Há tantas coisas que parecem mudar de aspecto, à luz da lamparina do Sacrário! O chamado "critério cientifico" ou o "valor artistico" que se envocam como se fossem um detergente mágico que purificam qualquer indecência ou justifica as mais aberrantes e ofensas ao pudor, examinados na penumbra serena de uma igreja, não me parecem capazes de contrabalançar o escandalo que produzem as feridas que causam nas consciências delicadas, o baixo nível moral que revelam em quem fala e em quem ouve.

    Penso nos sacerdotes que mais admiro e percebo que são os mesmos que hoje continuam a falar numa linguagem tão pura e doce como quando ainda não tinham começado a folhear os textos de teologia moral. Jamais perderam a simplicidade e a inocência.

    É agora que estremeço ao recordar tantas exposições sobre a "santa virtude" - a virtude da castidade - que eu escutava cheio de vaidade complacente, enquanto o diretor do retiro nos previnia sobre os perigos que podiam advir de um trato leviano com o sexo oposto. Sentia-me tão seguro contra esses perigos externos que não pensavam em como era vulnerável o meu interior.

    É agora ainda que recordo os conselhos impacientes que dava a penitentes difíceis - oração, vigilância, fugir das ocasiões, levantar-se imediatamente pela confissão individual - e compreendo com pavos como me esquecia de aconselhar-me a mim mesmo.

    Agora posso ver o que antigamente não via: que os outros serão mais fortes se eu for menos fraco...que o rebanho não se dispersará se eu estiver mais vigilante.

    A graça! Esta é a palavra de ouro! Toda minha auto-condenação não pode obscurecer o fato de que a graça de Deus é capaz de vencer até a minha astúcia fraudulenta."A quem faz tudo quanto pode, Deus não nega sua graça" - esta é a tabua de salvação que se torna bem visível neste momento e dor e arrependimento.

    Sei que devo agarrar-me a ela prontamente. O tempo da graça é sempre agora.

    O filho pródigo não desperdiçou tempo na viagem de regresso; Maria Madalena não esperou que a refeição terminasse para lançar-se aos pés do Senhor; o bom ladrão não adiou a sua conversão até verificar se Cristo descia da cruz.

    A paz e a tranquilidade estão batendo a minha porta. Estes dias miseráveis e sombrios, devidos as minhas lutas interiores e aos remorsos pessoais, podem desaparecer tão facilmente...

    O último toque do Angelus perde-se ao longe na campina tranquila. Ganharei a indulgência, agora que os sinos acabaram de tocar? Seja como for, "o Anjo do Senhor anunciou a Maria..."

    Fonte: Vaso de Argila

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    quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

    O Exame Particular



    Por Padre Leo Trese

    11,45

    Neste interlúdio tão agradável de quinze minutos livres, lamentando pela milésima vez ter sido tão materialista em assuntos espirituais, entro na sacristia.

    Sempre me tocou aprender do modo mais difícil, à força de pancadas.

    Apesar dos diretores do seminário e dos teólogos de ascética, tive que descobrir por mim mesmo que ou meditamos ou perecemos. Mais tempo ainda levarei a admitir a necessidade do exame de consciência. Considerava-o privativo das freiras e dos seminaristas, deslocado na vida de um sacerdote cheio de afazeres. Pouco a pouco, no entanto, fui percebendo que a meditação, só por si, não é suficiente. As boas resoluções esquecem-se depressa.

    Às sete da manhã parecia-me estar flutuando em outro mundo, mas às sete da tarde sentia-me muito preso a este. Era evidente que meus esforços espirituais tinham o mesmo defeito do meu futebol: Falta de fôlego.

    Enquanto os meus joelhos tratam de apoiar-se comodamente nos degraus do altar, penso maravilhado no poder da graça divina, que consegue abrandar uma cabeça tão dura como a minha. Por fim, resolvi fazer todos os dias o meu exame de consciencia. Foi um esforço que se salvou do fracasso e do desleixo por uma margem muito estreita, mas que talvez só fosse estreita na aparencia, já que essa margem era nem mais nem menos a graça de Deus.

    A princípio, apresentaram-se duas dificuldades.

    A primeira, que tardei em reconhecer, foi a minha própria presunção e ougulho. Esses poucos minutos pareciam-me ridiculamente longos. Coisa estranha! Era-me extremamente fácil passar uma hora refletindo sobre o lado bom dos meus supostos talentos e façanhas, e não era capaz de preencher cinco minutos pensando nos meus defeitos.

    Ainda hoje coro de vergonha quando me lembro de que, as vezes, tinha que rezar uma ou outra dezena do terço durante o exame, porque não encontrava nada de especial em que pensar! Felizmente, persisti nessa prática o tempo suficiente para que o vapor se dissipasse do espelho e eu começasse a ver-me tal como era.

    Compreendo agora porque passei tanto tempo procurando esquivar-me: o meu velho compadre, o eu, tinha o pressentimento e o pavor do escandalo que podia rebentar. Não é agradável ser-se apanhado em mentira, mesmo que seja uma só vez. Mas esse guia severo e impiedoso chamado exame surpreendia-me sempre quando mais me sentia enlevado nas minhas cômodas ilusões.

    A segunda dificuldade consistiu no velho e capcioso pretexto que se pode resumir numa frase: "muito ocupado". Fosse o que fosse que estivesse fazendo antes do almoço, quer se tratasse de uma visita paroquial, de um trabalho na secretaria ou de uma simples conversa com uma visita, sempre me parecia impossível livrar-me antes da hora exata de sentar-me a mesa.

    Soava o Angelus, e onde encontrar tempo para o exame? A dificuldade resolveu-se muito simplesmente quando me ocorreu a idéia (obrigado meu Deus) de atrasar quinze minutos a hora do almoço e passar esse tempo na igreja. Foi tão fácil!

    Agora encerro os meus trabalhos da manhã, não ao meio-dia, mas às 11:45. É surpreendente verificar como a visita mais persistente se retira de boa vontade quando lhe digo: "Agora tenho que ir a igreja"; estou certo de que sai menos descontente do que se lhe dissesse: "São horas do meu almoço".

    "Muito ocupado"! é um argumento que ainda não consegui abolir por completo. Vez por outra, tenho que fazer disso tema do meu exame. Muito ocupado para cumprir a minha única obrigação, que é santificar-me?

    Será possível que a minha gente perca alguma coisa por eu reservar parte do meu tempo para tentar ser melhor sacerdote? Estou mergulhado em reuniões, planos e atividades. Todas as noites a luz fica acesa até altas horas no salão paroquial. Mobilizei todos os membros da paróquia, exceto os cães e os gatos. Não tenho tempo para mim. Todos podem ver como me dedico aos meus paroquianos!

    Penso então no Cura d'Ars e... zás! lá se vai por água abaixo o parapeito que ergui com tanto esforço para livrar-me da tarefa da minha própria santificação.

    Quantos escoteiros e escoteiras tinha o Cura d'Ars? Quantas equipes de futebol, quantos campeonatos e quantos clubes organizou? Se eu me decidisse a ser um verdadeiro sacerdote, um homem de oração, de caridade e de sacrificio (por essa ordem), talvez passasse a ter o confessionário e a mesa da Comunhão completamente cheios, e não tivesse que recorrer a tantos sermões e circulares.

    Não é que as atividades da paróquia não tenham a sua importância, mas devo ve-las na sua perspectiva real e não permitir que a moldura seja maior que o quadro. Construirei, portanto, algumas barreiras: barreiras em torno do tempo da meditação, do meu exame de consciência e da minha leitura espiritual. E pregarei nelas um grande cartaz: "Proibida a entrada", exatamente como faço para as refeições e para o sono.

    Antes de tentar seguir o exemplo de São Paulo e "fazer-me tudo para todos", lutarei em primeiro lugar para que "Cristo viva em mim e eu nEle".

    Tenho a vaga suspeita de ter procedido até agora completamente ao contrário.

    Oh!, faltam três minutos para o meio-dia e eu ainda não comecei o meu exame! Nem sequer invoquei as luzes do Espírito Santo.

    Mas talvez não tenha perdido tempo.

    Ainda que já tenha pensado muitas outras vezes nessa mesma coisa, o mundo não desabará se o faço mais uma.

    Tenho uma cabeça tão dura, tão terrivelmente dura!

    Fonte: Vaso de Argila

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    segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

    Um pouco de Bondade


    Por Padre Leo Trese

    11,00

    Joe Heims, que trabalha no turno da tarde, deve estar chegando para a aula de catecismo que lhe dou duas vezes por semana. Enquanto espero por ele e tomo umas notas sem importância, lembro-me da primeira vez que o vi.

    Não se atrevia a dizer-me que queria fazer-se católico. Ainda bem que a mãe o fosse, ele não era batizado. Achava que já era tempo de dar esse passo.

    Conversando com ele umas coisas e outras, para pô-lo à vontade, soube que vivia a alguns quilometros de distância, em outra paróquia. Então, por que vinha à minha? "Bem - explicou-me -, há já algum tempo que queria falar com um padre, mas tinha receio. O outro dia, estava com Charlie Orts no seu posto de gasolina, e ele me disse que o senhor era uma pessoa acessível e que nunca se aborrecia com ninguém. Por isso resolvi procurá-lo".

    Fechei os olhos numa súbita mas fervorosa ação de graças, por Charlie não me conhecer tão bem como imagina. A partir de então, Joe e eu começamos a encontrar-nos.

    Enquanto continuo a esperá-lo, penso na enorme importância que tem um pouco de bondade. É uma semente tão pequena como o grão de mostarda do Evangelho, e os seus ramos também se estendem muito longe.

    A medida que os anos passam e me envolvo cada vez mais na rotina do dia-a-dia, os meus sonhos de juventude, de realizar um trabalho verdadeiramente missionário, vão-se desvanecendo pouco a pouco. E como se torna cada vez mais difícil ir visitar os outros, refugio-me na esperança de ser um sacerdote de quem os outros, impelidos pela graça, se possam aproximar sem constrangimento e cheios de confiança.

    Resolvo pois, pedir com mais insistência ao Senhor a virtude da amabilidade e a vigilância necessária para prevenir qualquer fracasso nesse terreno.

    Porque é tão fácil falhar! É fácil descarregar nos coroinhas o mal humor matutino. É fácil repreender os menininhos que passam correndo e gritando pelo gramado em frente da minha janela, perturbando meu descanso.

    É fácil ser brusco quando alguém me telefona uma hora absurda, para fazer uma pergunta a que já respondi nas advertências finais do domingo passado. É fácil exasperar-me com o presidente da Confraria cuja irresponsável juventude fez cair por terra um projeto mimado. É fácil substituir um membro do conselho paroquial, obstinado e arrogante na sua ignorância.

    Tudo isso é fácil. Em contra partida, é difícil sorrir e ser amável quando tenho uma forte dor de cabeça e anseio por um pouco de compreensão. É difícil conservar a calma quando pais negligentes querem batizar um bebê em dia e hora determinadas, quando deviam te-lo trazido 6 meses antes.

    É difícil...Mas pra que citar mais casos? É dificil parecer-me com Jesus Cristo!

    E necessário também. Necessário, sim, se sequer enfrentar o dia do juízo com um pouco de esperança. Repassando estes meus 20 anos de sacerdócio, não consigo lembrar-me de um só cristão que tenha abandonado a Igreja porque o seu pároco era alcólatra ou um limbertino.

    Mas não me bastam os dedos das mãos para contar os ex-católicos que me disseram: "Briguei com o padre"; "Tive uma discussão com o padre Griper"; "O vigário expulsou-me e disse-me que não aparecesse mais"; "O padre disse-me que eu era pessoa de maus bofes" e assim sucessivamente com as variantes sobejamente conhecidas dos que frequentam uma paróquia. Em muitos casos, eram simples subterfúgios, naturalmente. Mas ...

    Seria maravilhoso, penso que nos os padres fossemos conhecidos como "homens mais amáveis do mundo". Já passaram os tempos em que o clero era considerado a classe mais culta. Hoje, nesta época de materialismo e descrença, também não acreditam que sejamos o grupo mais honrado do mundo. E os nossos próprios compromissos com o espírito da sociedade fazem por em dúvida que sejamos os paladinos do ascetismo.

    Mas a amabilidade...essa deveria ser-nos fácil! Deveria, ainda que não se trate de nenhuma virtude de classe, mas individual.

    Lembro-me de repente do funeral da padre Félix, enquanto desenho as sombrancelhas no rosto que o meu lápis esboçou tão desajeitadamente. Assisti ao seu enterro na semana passada. Em quase todos os bancos pude obeservar olhos úmidos e narizes vermelhos, e não era por estarem resfriados: choravam.

    Como eu conhecia o padre Félix, pude ler o que lhes ia na alma: "Era um homem tão afável!". Nunca tinha pensado nisso antes, mas reparei então que já assistira ao funeral de muitos sacerdotes em que a gente tinha os olhos absolutamente secos.

    Como foi horrível o quadro que se desenhou diante de mim: os verdadeiros filhos em Cristo do sacerdote, que acompanham impassíveis o enterro do seu pai!.

    Chorarão em meu funeral? pergunto-me a mim mesmo, enquanto rasgo a folha rabiscada e a jogo no cesto dos papéis. Não é que eu tenha agora nenhum prazer especial em imaginar caras banhadas em lágrimas. Mas as lágrimas podem inclinar o justo Juiz a admitir que merecemos misericórdia por termos sido misericordiosos.

    Que homenagem maravilhosa seria para um padre se se pudesse gravar na sepultura, sem receio de nenhum desmentido: "Foi amável".

    Mas soa a campainha. É Joe que chega.

    Fonte: Vaso de Argila

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    sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

    A minha consciência e eu

















    Por Padre Leo Trese

    10,45

    Terminada a Hora Média, puxo de um cigarro com um movimento quase instintivo. Não admira: é um movimento que repito mais ou menos trinta vezes por dia.

    De cada vez que o faço, a consciência repreende-me com um aviso, já completamente familiar. E aqui estamos outra vez - penso amargamente - com outro cigarro na boca e um fósforo na mão; aqui estamos outra vez, a minha consciência e eu, às voltas com o mesmo assunto.

    Consciência: Por que não deixas de fumar?

    Eu: Acho que deveria.

    Consciência: Pois claro! É a única coisa da tua vida que não te deixa livre. Como podes falar de mortificação se fumas maço e meio de cigarros por dia?

    Eu: Mas eu gosto de fumar e sabes perfeitamente que o Dr. Fitzgerald disse que não me fazia mal. Além disso, não me esqueço de dar graças a Deus, por esta pequena satisfação. Não faço bem?

    Consciência: É claro que não. Fazer as coisas sómente por prazer parece-me um pecado. Uma ação que não tenha um fim sobrenatural não tem valor.

    Eu: Estás então querendo dizer que faço mal porque gosto de ver o nascer do sol da janela do meu quarto? Ou porque gosto de respirar o perfume dos lilases na primavera ou das folhas secas no outono? Ou porque...

    Consciência: Alto lá! Estávamos falando de cigarros. És capaz de dizer-me o nome de um santo que tivesse o hábito de fumar?

    Eu: Muito bem, se preferes argumentos ad hominem, permite-me uma pergunta: és capaz de dizer o nome de um santo cuja canonização tenha sido recusada por fumar, mascar tabaco ou aspirar rapé?

    Acho que nossa questão não é de santidade, mas de pecado; se for de santidade, talvez estejamos de acordo. Mas explica-me em que consiste o pecado de fumar, e eu deixarei de comete-lo agora mesmo.

    Consciência: Bem, talvez não seja pecado, mas seria melhor deixares de fumar imediatamente.

    Eu: Não, imediatamente não. Sabes o que aconteceria se deixasse de fumar imediatamente? Ficaria orgulhoso como o demônio da minha força de vontade; desprezaria os meus amigos que não fossem capazes de fazer como eu; estaria tão ocupado em pavonear o meu auto-domínio que esqueceria as mortificações mais importantes.

    Consciência: Mais importantes? Quais por exemplo?

    Eu: Não me digas que não sabes que a mortificação interior é mais importante que a exterior? Olha por exemplo o que acontece nas sextas feiras à noite: batem as nove, hora que terminam oficialmente as confissões, se eu fosse zeloso como devia, não iria correndo fechar a porta da Igreja para evitar a entrada de um retardatário, mas daria uma olhada pela rua para o caso de estar chegando algum filho pródigo.

    Ou senão, olha para este outro exemplo: é um dia qualquer e eu me encontro no meu escritório, com o plano de trabalho já estabelecido, quando chega alguém querendo sentar-se e falar-me de alguma bobagem. Se eu me mortificasse interiormente descobriria nessa pessoa a vontade de Deus e não teria tanta pressa em ve-la pelas costas.

    Repara finalmente, no que aconteceu no último domingo: preparava-me tranquilamente para descansar, quando me vieram dizer que a velha senhora Ebers precisava de que a levassem de carro ao hospital, a uns oitenta quilometros, para visitar o marido. Se fosse interiormente mortificado, não teria demorado quinze minutos a ir ao telefone e oferecer-me para leva-la.

    Como ves, são alguns exemplos daquilo que penso serem as mortificações mais importantes. Podia deixar de fumar e continuar sendo um terrível egoísta, negligente e insuportável. Se me abstivesse da nicotina, não conseguiria nem a metade das vantagens que meia hora de oração me oferece todos os dias. Se amasse mais a Deus...

    Consciência: Sim, já sei aonde queres chegar. Se amasses mais a Deus, seria mais fácil que te mortificasses. Uma renúncia heróica é mais o resultado do que a causa da virtude. Se progredisses no amor a Deus, o teu egoísmo se desfaria como uma cebola, casca por casca, até não restar nada. Pensas que chegará um dia em que te há de parecer natural e até inevitável deixar de fumar do que em agarrar-te a esse costume.

    Enfim! O melhor seria aceitarmos um empate nesta disputa e eu variar a minha linha de ataque. Quanto tempo achas que precisarias para deixar de fumar segundo o teu método?

    Eu: Só Deus sabe.

    Há momentos em que penso que o próprio Deus desanima tentando ensinar-me a cortar o mal pela raiz. Talvez o meu aço não esteja suficientemente temperado.

    Mas, consciência, não me abandones; se o conseguir, há de ser com a tua ajuda. A graça faz milagres e é possível que chegue um dia em que eu encontre verdadeira alegria em jogar cinza na comida e dormir sobre uma tábua.

    Entretanto, continuarei a saborear uma boa refeição, com toda a gratidão que devo a Deus e com o maior respeito pela virtude da temperança. Em nome da fraternidade e com o devido respeito pela virtude da sobriedade, continuarei a tomar um aperitivo com os meus irmãos sacerdotes antes do jantar.

    Parece-me ser uma sã doutrina pensar que tudo o que Deus faz é bom. Com toda a certeza, a alegria de um prazer inocente é obra das suas mãos e não se pode considerar um erro.

    Por isso, até que...

    Consciência: Cuidado! Esse fósforo vai-te queimar os dedos! Vamos, acende o cigarro e deixa de filosofar. Espero que não te convertas num racionalista. De qualquer modo, agora tenho mais que fazer. Preciso afiar a ponta da próxima seta.

    Fonte: Vaso de Argila

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    sábado, 19 de novembro de 2011

    O Breviário.


    Por Padre Leo Trese

    10,30

    Enquanto me preparo para recitar a Hora Média, penso que tem muita razão os que chamam o Breviário de "minha esposa".

    Há uma lua de mel logo depois do diaconato, quando o recém-ordenado e o Breviário são praticamente inseparáveis e dizemos com um fremito de orgulho: "Tenho que ir rezar o Breviário".

    Depois chegam o sacerdócio e esses anos friamente realistas em que o lemos todo de enfiada, numa corrida contra-relógio para recitar o final junto com a s últimas badaladas da meia-noite.

    E então o Opus Dei se transforma em Onus diei (a Liturgia das Horas é chamada de opus dei, obra de Deus. - onus diei peso ou carga do dia) e deseja-se secretamente que venham os de Roma fazer o trabalho de um sacerdote americano, ao menos durante uma semana.

    Vem mais tarde os anos da maturidade e dos cabelos grisalhos, em que esse sócio, vestido de negro e ouro, se converte num companheiro reconfortante e mesmo amado, em que existe uma verdadeira afeição no ósculo que lhe damos quando nos erguemos do genuflexório, com os joelhos rangendo por causa do reumatismo.

    Finalmente, chega um dia em que o sacerdote já não pode ler mais; o Breviário está ali, junto da sua cama, como um silencioso companheiro que o conforta enquanto ele se debilita cada vez mais. E quando o sacerdote vai repousar eternamente, nenhum vestido de viuva é tão comovente como as páginas amareladas e gastas do livro que deixou atrás de si.

    Mas os anos do meio foram os mais duros. Foram duros porque eu os tornei duros.

    Foram difíceis porque me deixei arrastar por essa heresia vulgar de antepor o trabalho à oração e pela minha desordem juvenil. Não tinha estabelecido um horário com momentos fixos para as coisas essenciais. Desperdiçava as horas do dia como um perdulário desperdiça o seu dinheiro; e me preocupava com o preço.
    Havia, além disso, a dificuldade da lingua. No colégio, ensinaram-nos tão bem a lingua de Cícero e de Santo Agostinho que ainda hoje tremo quando um rapaz se aproxima de mim e me pergunta: "Padre, como é que se traduz esta frase?"

    Mas o transcrever do tempo trouxe-me, se não sabedoria, pelo menos hábitos de ordem.

    Assegurava-me um sábio diretor de retiros que, ao recitar o Ofício divino, eu era o porta-voz do Corpo Místico e que a Ecclesia orans - a Igreja que ora - era quem suplicava a Deus através de mim, sem levar em conta o grau de compreensão com que lia. Fez-me entender também o mérito da obediência, um mérito que cresce com a dificuldade do dever a cumprir. Pouco a pouco, diminuiu a minha relutância.

    Mas houve outros fatores que me ajudaram a riscar o Ofício divino da lista dos meus adversários. Convenci-me de que há certas coisas que são incompatíveis com a oração: o rádio por exemplo. Compreendi com certa facilidade que era pouco menos que pecaminoso querer rezar durante a transmissão de um jogo de futebol ou enquanto o último noticiário bloqueava toda a comunicação com o céu.

    Apesar disso, durante muito tempo achei que uma música suave ajudava, até que pude verificar que mesmo uma música suave absorve um mínimo de atenção - que roubamos a Deus.

    Mais adiante, durante certas reuniões com a minha família ou em outra casa paroquial, cheguei a abandonar a conversa ou o jogo de cartas e retirar-se para a sala contígua, disposto a acabar a leitura do Breviário.

    A vozes, as piadas e os risos soavam claramente aos meus ouvidos, de modo que não perdia nada. Nada, a não ser o mérito de uma oração sincera. Por uma graça imerecida, compreendi finalmente que tinha que reservar um tempo fixo para essa leitura, um tempo em que nada a não ser uma emergencia me perturbasse, um tempo que me permitisse terminá-la antes do anoitecer.

    Por isso, atualmente rezo o Ofício das leituras e as Laudes antes da Missa, a Hora Média às 10,30 ou pelo menos antes do almoço; as Vésperas sempre antes do jantar, e as Completas antes de recolher-me. Há ocasiões em que as circunstâncias exigem um reajustamento, mas, para que haja exceções, é necessário que haja primeiro uma regra.

    Com todas estas reflexões, não rezei ainda a Hora Média. Abro o livro resolutamente. Faz hoje um desses maravilhosos dias de primavera que nos convidam a viver. Porei o maior cuidado nos versículos que exprimem esse estado de espírito: Exultai, justos no Senhor! .

    Há outros dias (que deveriam ser mais) em que me inclino para a penitência; então procuro frases como: Por vossa imensa bondade, apagai, Senhor, a minha culpa.
    E outros em que me sinto agradecido, talvez pela conversão de um grande pecador ou (sejamos sinceros) por ter recebido um estipendio mais generoso: adquirem então especial significado para mim determinados versículos como: Bendiz, ó minha alma, ó Senhor e, do fundo do meu coração, o seu santo nome.

    É uma tolice recitar o Ofício de acordo com os estados de animo, mas não há dúvida de que assim fixo o espírito e dou mais vitalidade à oração, detendo-me, aqui e acolá numa palavra ou frase que corresponda aos meus sentimentos atuais.

    Bem , Senhor, aqui estou eu, o inculto Léo, que vos fala em nome da Igreja universal. É admirável ver como Vos contentais com tão pouco Senhor.

    Talvez seja por causa disso que vou fazer com que alguma alma se salve na Rússia ou alguém na minha paróquia se veja livre de uma tentação.

    Fonte: Vaso de Argila

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    sexta-feira, 4 de novembro de 2011

    A Formação das Crianças



    10,15

    Por padre Leo Trese

    O meu trabalho da manhã na escola terminou e eu volto calmamente para a casa paroquial, pensando ainda nas crianças. Supõem uma responsabilidade esmagadora.

    "Dai-me uma criança e eu a devolverei homem". Hitler quase conseguiu isso. Os comuninistas também parece que o estão conseguindo.

    E nós? Não estou tão certo. Há muitos anos que venho dizendo honestamente, como toda a gente, que a esperança do futuro depende das crianças. E, no entanto, quando o futuro chega, parece-se suspeitamente com o passado. Ninguém como nós, padres, tem tantas oportunidades de influir nos pequenos. E cá estou eu outra vez a refugiar-me na multidão; digo "nós" quando deveria dizer "eu" e "me".

    A única parte do mundo de que tenho que prestar contas está aqui mesmo, dentro desta velha paróquia de Saint Patrick. As únicas crianças do mundo que tenho de formar e educar são os alunos da pequena escola de tijolo de Exerter Road. Bem, que faço eu para torná-los melhores que os seus pais? Não é que os seus pais não sejam bons; não os quero ofender.

    No entanto, um estranho seria incapaz de distingui-los dos outros pais que frequentaram a escola luterana de Sandy Creek ou que tiveram as suas lições sobre a Bíblia com o velho reverendo Merril, na igreja metodista. Nos dias de semana, todos parecem talhados pelo mesmo molde. Gostam de ter as mesmas conversas, de ir as mesmas cervejarias e de entreter-se com as mesmas trivialidades.

    Se os filhos devem ser diferentes, sou eu quem, depois da graça de Deus, lhes deverá dar um bom empurrão. Conheço de sobras as necessidades destes meninos. E também estou certo de que a doutrina do Corpo Místico - com todas as suas consequencias sociais para a vida, em cada um dos sete dias da semana - seria verdadeiramente a dinamite que eles esperam, desde que alguém - eu, somente eu - pudesse acender a mecha.

    O problema está em que, para lhe ensinar a verdade do Corpo Místico de um modo adequado ao seu nível mental, teria de haver-me com uma grande carga de trabalho, estudo e reflexões. Quando entrei no seminário, Tanquerey não tinha um tratado deste tipo. Deverei, pois , ler a Encíclica "Mystici Corporis"e, talvez, dois ou três livros a mais.

    Mas isso não basta. O Corpo Místico leva, logicamente, à liturgia. Acho que deveria ler as instruções sobre a liturgia que estão aí na estante a caminho de cobrir-se de pó, e também algum livro. Com a Missa bem vivida e o amor pelos sacramentos, os bancos da frente estariam cheios aos domingos, e talvez nos demais dias da semana se ouvisse o agradável rumor de muitos passos percorrendo a nave.

    Mas tenho tanto que fazer! Não tenho tempo para estudos e tantas reflexões; sobretudo para refletir. Mas, um momento! pelo menos sejamos siceros. E se aproveitasse para isso o tempo que dedico a dar uma vista de olhos no Saturday Evening Post, a folhear a Life, a ver as caricaturas do Colliers, para não falar do Timeque leio de cabo a rabo?

    Digo a mim mesmo que tenho se estar bem informado sobre o que se passa no mundo, e, no entanto, nos meus momentos de lucidez, tenho de admitir que 90% das minhas leituras são bagatelas que esqueço numa semana. Mais do que informação, o que procuro é evadir-me do terrível trabalho de refletir.

    Tudo aquilo que eu chamo de informação e cultura não daria nem para manter uma boa conversa. Alguém pergunta se li tal artigo das Seleções, respondo-lhe "sim" e eles diz "ah" e aí acaba a conversa. Pelo contrário, se digo "não, de que se trata?", começo a fazer-me amigo de quem estava tão desejoso de contar-me as suas leituras.

    Pois bem, prometo não comprar mais revistas. (Contando pelos meus dedos, acho que a Care saberá utilizar bem o dinheiro poupado).

    No próximo ano escolar, darei uma hora mais de formação religiosa as últimas classes. Estudarei e explicarei o Corpo Místico de tal maneira que estes meninos possam ve-lo mexer-se e respirar, e sentir-se eles próprios parte dele. Estudarei liturgia , como devia ter feito há anos, com todo seu simbolismo, poder e beleza. Ama-la-ei com tanto amor que saberei transmitir esse amor às crianças, até que saltem de entusiasmo nos seus lugares.

    Poderei contemplar em todos estes meninos o caráter neles impresso pelo Batismo e pela Confirmação, irradiando a sua luz através dos seus peitos. Dialogarão a Missa e cantarão até fazerem vibrar os vitrais. Iniciarei na minha paróquia uma geração que se manterá cristã durante as vinte e quatro horas do dia. Farei...

    Ou melhor, espero fazer. Mas não seria muito mais fácil seguir caminhos já trilhados? Por que tanta dor de cabeça? Afinal, seria suficiente obedecer o bispo.

    E as irmãs sabem faze-lo muito melhor do que eu, porque se formaram nisso.

    E se me transferirem de paróquia? Tudo ruirá...Bem, dá na mesma. Tentarei. E que Deus me confirme.

    Fonte: Vaso de Argila (veja aqui os artigos anteriores)

    domingo, 30 de outubro de 2011

    A visita aos Doentes



    9,15

    Por padre Leo Trese

    Esta é a manhã em que o Senhor* e eu costumamos fazer a visita à Sra Diller, que está de cama com a perna quebrada. *(Padre Léo se refere a Sagrada Hóstia, o Senhor sacramentado, que vai levar consigo a uma doente)

    No momento em que apago as velas e me afasto do Sacrário tendo entre as mãos a bolsa de seda, sinto outra vez a inefável emoção que me acompanha nestas excursões com o Divino Médico. Já ao volante do meu Ford, penso que sou sentimental, mas a Sua presença ao meu lado é agora completamente real.

    Olhamos ambos através da janela do carro. "Pobre Max Corrigan - murmuro ao passar pelo seu celeiro, agora em cinzas - este ano ele e os filhos vão precisar de muita ajuda". Pelo canto do olho, quase posso ver o meu Companheiro de viagem acenar com a cabeça e sorrir como que concordando."Isto já está arrumado - penso para mim - Max pode deixar de se preocupar".

    Nada digo quando passamos pela casa de uma aflitíssima avó que cuida da pequena Maria, pater ignotus, de pai desconhecido; nada digo, mas não pode enganar-me a expressão de piedade desses olhos que olham ao mesmo tempo que os meus.

    Viro rapidamente o volante quando passamos pelo pobre louco Walter, que caminha penosamente pela estrada, e o meu Companheiro saúda com a mão, como eu, aquela alma infantil que habita num corpo de cinquenta anos.

    Se o itinerário é longo - as vezes, andamos sete ou oito kilometros sem parar - vou desfiando as contas do terço e Ele me fala da nossa Mãe.

    Outras vezes, procuro entrete-Lo com canções da minha juventude, daquelas que fariam levantar o sombrolho nos meios musicais. Ao ouvirem-me cantar - enquanto os tempos passam através da janela aberta do carro -, os passarinhos dos beirais estendem assustados as suas cabecinhas. Mas o meu Companheiro de viagem não se opõe, é a voz que Ele me deu.

    Por vezes, seguimos em silencio enquanto Ele me ajuda a resolver os meus problemas. Foi durante estas viagens que me ensinou que nunca, exceto na Missa, estou tão perto dEle como nos momentos em que visitamos juntos os seus queridos doentes, os seus próprios membros que sofrem. Parece-me incrível que tenha havido um tempo em que considerava estas visitas um trabalho penoso e só as fazia quando era chamado. É incrível como dava mais valor a outros deveres - a escola, as reuniões, a ginástica - do que a este outro, o mais essencial. Por estranho que pareça, era o que acontecia.

    Só com o andar do tempo é que consegui reconhecer a verdade que agora me parece tão clara - a de que, nestas visitas, estou com Cristo e sou o próprio Cristo. Ele não precisa estar comigo sacramentalmente. É suficiente que eu leve apenas a benção e uma palavra de animo a um doente, para ter certeza da proximidade quase física do meu Mestre.

    Percebi que esta é a verdadeira caridade que cobre a multidão de pecados. Enquanto em outras épocas tapava os ouvidos mal ouvia falar de doenças e sofrimentos, agora aprendi qta alegria há em procurá-los.

    Foi Ele que me ensinou a alegria de ir inesperadamente visitar um doente que não pensava estar tão mal que precisasse de padre; é a Ele que atribuo humildemente a grata surpresa que se reflete nos olhos de dor de uma pessoa acamada. Ainda que pareça estranho, nenhum dever do dia fica prejudicado pelo tempo que dedico aos doentes. Muitas vezes penso que os livros de teologia pastoral deviam trazer uma espécie de lista de obrigações sacerdotais, ordenadas pela sua importância. Em primeiro lugar, sublinhado como dever absoluto, viria: dedicação aos doentes e aos que sofrem. E em baixo, outras coisas tais como catequese, sermões, organização...

    A recompensa é, como diria meu encarregado de esportes, que nada fará com que um sacerdote conquiste tão rapidamente o afeto de seus paroquianos - dos enfermos e dos sãos - como o apostolado dos doentes.Bem pode o padre ser irascível, exigente ou briguento, que tudo lhe será perdoado se puderem contar com ele a seu lado como "pai dedicado" e "baluarte de coragem", sempre que a doença os abale.

    Nem uma gripe de uma semana escapa ao conhecimento do Divino Médico. Foi numa desas visitas que fizemos juntos que Ele me pediu que aconselhasse ao povo: "Se alguém da família ficar tão doente que precise de médico, não deixem de avisar também o pároco".

    Ninguém pode imaginar como estes doentes agradecem e amam as bençãos e as ricas e variadas orações que dão um novo significado aos seus achaques. Embora nem sempre compreendam inteiramente, intuem o significado real do Corpo Místico de Cristo e percebem como a Igreja se utiliza do imenso caudal das suas energias para robustecer os débeis.

    Há também outras que abundam nas casas dos que sofrem. Faz agora precisamente uma semana, no domingo passado, fiquei tão surpreendido que quase não consegui continuar a dar a Comunhão: o velho Joe Kearns estava ali, de joelhos, para receber o Senhor pela primeira vez depois de quarenta anos: as minhas frequentes visitas a sua esposa, que estava de cama, tinham sido o veículo escolhido por Deus para levar-lhe a sua graça...

    Esta manhã a sra Vandercook telefonou-me querendo saber se podia começar as suas aulas de catecismo. O Mestre intervem discretamente; tinha ido comigo visitá-la no dia em que ela esteve a ponto de perder o seu filhinho mais novo.

    Bem, cá estamos diante da casa dos Diller. Este carro velho e enlameado não se parece com uma carruagem real, penso eu enquanto estacionamos junto da porta da cozinha. Através dos vidros, posso ver o candeeiro aceso. A filha dos Diller está a minha espera - a filha casada, aquela que começou vir a igreja desde que Cristo começou a visitar sua mãe; matriculou também os filhos na escola católica e em breve irão fazer a Primeira Comunhão.

    A sra Diller vai ficar muito contente. E Cristo também. É surpreendente pensar no que consegue fazer uma perna quebrada.

    sexta-feira, 21 de outubro de 2011

    Viver no Campo


    Por Padre Leo Trese

    9,00

    Viver no campo tem as suas vantagens. De manhã, não se encontra nenhum jornal em cima da mesa, e portanto podemos tomar o café pensando no que vamos fazer durante o dia. Hoje, por exemplo, tenho que ...tanta coisa!

    O primeiro gole do café forte e aromático preparado por Annie faz-me dar mais uma vez graças a Deus pela governanta que tão bem o sabe fazer e que possui, além de outras, a qualidade de ser asseada, discreta e bem-humorada; e, acima de tudo, leal.

    A lealdade - penso eu, enquanto como - é a qualidade mais barata que existe. Compramo-la ao preço da consideração e da cortesia para com os outros.

    Não é que eu tenha algum mérito por respeitar os sentimentos alheios; é um hábito natural, não uma virtude - um hábito que devo a circunstancia de ter sido criado numa família de sete e de ter tido uma mãe judiciosa. Ainda me parece ouvir a sua voz firme e paciente: "Léo, guarda a revista que deixaste em cima da mesa"; "Léo, tira a malha dessa cadeira e vai po-la no armário"; "Léo, vem cá e põem essa roupa suja no cesto".

    Lembro-me de que eu resmungava, mas obedecia, e assim se foi formando em mim o hábito da ordem - um hábito que agora paga dividendos sob a forma de uma governanta que, no dia em que quizesse ir embora, ganharia bastante mais em outra casa e teria um dia livre por semana.

    Não é que eu não tenha tido meus momentos de recaída. Vem-me ao espírito algumas cenas do passado: três padres coadjuntores que nos saciávamos com uma melancia na cozinha de Saint-Alice, e depois enchíamos os canos da pia de sementes e acumulávamos as cascas no escorredor de pratos, enquanto discutíamos - oh ironia! - sobre o genio e a ambição de mandar das governantas dos padres.

    Revejo também um cinzeiro entornado que ficou onde caiu ("Deixe que ela limpa; é para isso que lhe pagamos"). Ou a cena de uns sapatos enlameados que foram deixando marcas por toda a casa ("Estou com pressa e aliás, esfregar um pouco não lhe fará mal nenhum"). E a imagem de um quarto de padre com os lençóis espalhados pelo chão, papéis amarrotados, livros amontoados sobre o parapeito da janela e sobre o aquecedor!

    Estranhas criaturas que servem uma casa paroquial. Ao lembrar-me de tudo o que tiveram que aguentar-me, pergunto-me como é que muitas delas não enlouqueceram por completo. Parece-me - enquanto mordo a segunda torrada - que a diferença entre uma casa feliz de um sacerdote e uma mera pensão de clérigo se resume numa simples palavra: "consideração". É uma virtude tão pequena que, por isso mesmo, é continuamente descuidada, ao passo, que virtudes mais deslumbrantes estimulam o nosso esforço.

    Conheci sacerdotes castos, sóbrios e justos, em cujas casas faltavam essa atmosfera de tranquilidade e alegria que um coadjutor deve encontar no lar em que tem de viver por obrigação. E também conheci coadjutores piedosos, cheios de zelo e responsáveis, que pela habitual irreflexão faziam com que mais de um pároco desejasse que nunca tivessem sido mandados para a sua paróquia.

    Pensando bem, acho que um caso a discutir poderia ser este: qual papel que a pequena virtude da consideração desempenha na santidade sacerdotal - consideração do pároco, e de uns e outros pela empregada doméstica.

    É bem mais fácil a vida de oração numa atmosfera de paz e felicidade. Um ambiente em que até as vacas - como se diz - dão mais leite e os psiquiatras tem pouco que fazer. E que aliás, se pode conseguir tão facilmente! Em primeiro lugar, deve haver uma consciente preocupação pelos outros. Deve haver um cordial desdém pelos "direitos" próprios e uma vontade alegre de renunciar aos privilégios.

    Deve haver ainda a disposição de aceitar, como coisa natural, uma parte da carga de trabalho superior à que nos corresponde, e até uma rivalidade por assumir as tarefas mais desagradáveis. Bem, talvez a coisa não seja tão fácil como pensava, sobretudo se na família paroquial há um membro desarticulado e disposto a consentir que sejam sempre os outros a tomarem a iniciativa de fazer o bem.

    Mas sempre é melhor o céu enevoado do que a escuridão total.

    Quando me lembro dos meus irmãos que abandonaram o sacerdócio, cujos nomes já não constam do elenco do clero da diocese ( meu Deus, salvai-os e perdoai-me!), aflige-me pensar que em alguns casos a crise desses homens começou por atritos, desgostos e ressentimentos dentro das paredes que deveriam ser o seu lar.

    É fácil que nós, sacerdotes, nos convençamos de que somos impecáveis, e a impecabilidade e a harmonia são conceitos completamente antitéticos.

    Faber descreve nas suas Conferencias espirituais "o espírito amargo e crítico de um homem que se mortificou até a rispidez por não possuir graça suficiente para vencer a sua incapacidade natural de ser amável".

    Outro escritor, um pouco mais mordaz, observa: "É quase inacreditável como muitas pessoas vão estreitando o círculo das suas amizades e estimando-se a si próprias - até se fazerem a si mesmas o modelo único de perfeição".

    Sim? E que direi eu de mim, aqui sentado tão satisfeito, sorvendo o café e reformando o mundo? melhor seria recordar-me de algumas outras citações, tais como esta: "Deus fez o homem juiz de si próprio para que a si próprio se condene, e juiz dos outros para que os desculpe as suas faltas".

    Mas o que é que me levou a pensar em tudo isto? As governantas, foi isso. Algum moderno Bossuet deveria escrever um poema para que els pudessem pendurar nos seus quartos. "Meu Deus, que vida! E é a tua, pobre governanta de um sacerdote!"


    Fonte: Vaso de Argila

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    sexta-feira, 7 de outubro de 2011

    Por todas as Intenções



    8,15

    Por padre Leo Trese
    "Lembrai-Vos, ó Pai, dos vossos filhos e filhas.."* Este é o momento da Missa que me dá forças e consolo para o resto do dia.

    *(Palavras do memento dos vivos, da Oração Eucarística I, a que o autor se refer nas páginas que se seguem).

    Ao juntar as mãos e inclinar a cabeça, pergunto-me se os outros padres passarão por momentos de angústia iguais aos meus: momentos em que a consciência da vastidão do meu trabalho e da minha inépcia parecem oprimir-me como um fardo insuportável; momentos em que tenho a impressão de estar lavrando um campo de quarenta alqueires com um palito; momentos em que o sentimento de frustração parece minar as nossas iniciativas e sufocar as mais legítimas ambições de um sacerdote.

    Suponho que estes estados de ânimo momentâneos poderiam ser atribuídos a perturbações glandulares ou de deficiências hormonais - se não fosse porque o que realmente falta é fé.

    No fim das contas, que é que salva as almas? Ele ou eu? Que importa que eu ande por aí a dar cabeçadas contra a parede? Ele não precisa de mim para alcançar os seus objetivos. Sou como uma criança que quer ver os seus deveres de casa cuidadosamente marcados com um "dez" na margem da página.

    Lembrai-Vos, ó Pai...Sim, este é o momento em que as angústias parecem mesquinhas, em que erros se corrigem e os fracassos desaparecem. Diante de mim, a Missa derrama a sua inextinguível torrente de graças. Mal posso formular intenções suficientes para deter a sua magnifíca exuberância. Mas dura tão pouco! Não chega para nada. Tudo o que posso dizer é: "Senhor, por todas as intenções de que Vos falei na minha oração desta manhã".

    É uma lista muito longa, cujo índice sofre diariamente adicionamentos e modificações.

    "Por todas as intenções do vosso sagrado Coração, mediante a intercessão de Maria" - assim começa a minha ladainha, na qual peço por todos aqueles de quem me consigo lembrar.

    "Peço-vos pelos meus pais...pelos meus paroquianos, especialmente pelos indiferentes e pelos pecadores...(agora em particular pelo velho Joe Marron, que resiste tão obstinadamente, e por Clem Snyder, que se casou na semana passada na igreja luterana); pelos não católicos que pertencem a minha paróquia, em especial pelos que estou catequizando ou já catequizei...; pelas crianças, especialmente pelas que estudam em escolas laicas...; pela graça das vocações sacerdotais nesta paróquia, sobretudo por Tommy e Don, que já estão "pensando nisso", e pela preseverança dos que responderam a vossa chamada...

    "Por mim mesmo, Senhor, em agradecimento pelas inúmeras graças que recebi, em reparação dos meus pecados, pela graça da perseverança final... para que não me falte fé, amor, pureza e zelo no vosso serviço..., a fim de que possa cumprir sempre a vossa Vontade, seja ou não do meu agrado, saiba ou não que a estou cumprindo.

    Fazei-me perseverante...

    "Pelos meus parentes, amigos e benfeitores; por todos aqueles por quem devo ou desejo pedir, especialmente por aqueles que me foram confiados ou por quem de algum modo sou responsável; fazei com que nenhuma alma se perca ou sofra por minha culpa".

    (Neste momento, a memória encarrega-se de agitar algumas recordações desagradáveis, que só podem ser apagadas pelo infinito caudal da Missa: o jovem Eddie, que expulsei do colégio quando, com um pouco de paciência, podia ter consertado a situação; os descrentes Morelli, que podiam ter-se convertido se eu tivesse sido um pouco mais indulgente quando procuravam dar sepultura cristã ao avô e eu os repeli tão asperamente. Quando medito no Juízo Final, não são os meus pecados que me fazem suar de medo - Deus os cobrirá com a sua graça - mas as minhas negligencias de pastor; é nisto que terei de haver-me com a justiça...)

    "Pelo Papa, pelo meu bispo, pelo bispo que me ordenou, pelos párocos que me guiaram e pelas Irmãs que contribuiram para a minha formação; por todos os sacerdotes e religiosos, principalmente de minha diocese, e em particular pelos que se extraviaram, sobretudo por N. e N. (Senhor, por que graça estou eu aqui, ao passo que eles se perderam?); pelos missionários neste e em outros países, para que sejam confortados por Vós nos seus momentos de desanimo e ajudados no seu trabalho pela Vossa graça..."

    Sim, é uma lista muito grande e cheia de ramificações, de imagens suscitadas pelo mal feito e pelo bem que ficou por fazer, se pessoas em necessidade e de almas aflitas, de responsabilidades esquivadas e de graças desperdiçadas... Como foi bom ter reservado estes dez minutos de minhas orações matutinas para enunciar as minhas intenções diárias!

    Como é bom também que a Missa seja uma torrente inesgotável! Há tanto que pedir, tanto!...

    E de todos que circundam este altar... No momento em que abro os braços, o meu fardo tornou-se mais leve e os meus nervos tranquilizaram-se.

    Trabalhando com a graça de Cristo nos meus problemas, só um tolo se afligiria.

    Fonte: Vaso de Argila

    Veja Mais:

    Começa um novo dia
    Elas podem esperar
    Sou um Meditador de Livros
    Esperam-me os coroinhas
    Ao Abrir o Missal
    Purificai meu coração
    O Vendedor e o Sacerdote
    A Lição de São Lourenço
    Temos um bom Sacerdote?
    Faça alguma coisa, já!

    Depois veremos:

    terça-feira, 20 de setembro de 2011

    Purificai o Meu Coração


    8,05

    Por padre Leo Trese
    Relembrando um pouco a minha vida passada, pergunto-me como fui capaz de habituar-me a celebrar a Missa como se o demônio estivesse agarrado a orla da alva.

    Pensando melhor, talvez estivesse.

    Realmente, houve qualquer coisa de insidioso no modo como passei dos primeiros dias do meu sacerdócio, quando a Missa era algo que saboreava e amava, para esse outro período em que me preocupava mais de celebrá-la às pressas do que de saborear a sua beleza.

    Agora fico vermelho de vergonha só de pensar que, voluntaria ou involuntariamente, costumava preferir as fórmulas mais breves; que ficava impaciente se as pessoas presentes diziam arrastadamente "ó Senhor, tende piedade de nós"; que me sentia interiormente contrariado se a Missa precisava de Glória ou Credo.

    Parece impossível, mas assim era, na verdade. Provavelmente, os meus movimentos e gestos acompanhavam o meu falso sentido de urgência. Nunca ninguém me disse que, com meu nervosismo, estava comprometendo a solenidade da Missa. O curioso é que foi uma pessoa de outra paróquia, que nunca me tinha visto celebrar, quem me trouxe ao bom caminho.

    Contava-me como lhe agradava assistir a Missa do padre Quamprimum*. (Quamprimum, em latim significa "quanto antes"). "O Senhor, - dizia-me ele -, devia ver como celebra! A Missa, a homilia e a Comunhão, tudo em vinte e cinco minutos. Isso é que é uma Missa!".

    E pôs tal enfase na observação que só a pude interpretar como um motejo. Sinto-me humildemente agradecido por ter feito cara de nojo ante o seu sorriso estúpido. Como uma bomba de ação retardada, o meu eu acusou o golpe: "Meu Deus, quem sabe se alguma vez não dirão isso de mim! Quem sabe se não estarão dizendo agora!"

    Por graça de Deus, pouco depois atingiu-me outro golpe de misericórdia. Um dos meu paroquianos, um desses pais genuinamente católicos, comentou-me quando estava gostando da Missa de um missiónário que se encontrava entre nós de passagem. Não havia malícia nas suas palavras, mas não pude deixar de notar que, embora inocentemente, pensava em mim ao dizer:"Estou gostando de ouvir a Missa do padre M; faz-me sentir que tudo nela tem importância". E eu que já começava a criticar o padre M. pela sua lentidão!...

    Em consequência, tentei celebrar mais devagar, mas não foi fácil, sobretudo no começo. Custou-me bastante passar a pronunciar todas as palavras com precisão e clareza. Demorei tempo a coordenar os gestos com as palavras que os acompanham. A princípio, preocupava-me o que lera há tempos no livro de Faber: um esforço consciencioso para dizer a Missa devagar não é devoção, antes demonstra que pensamos mais em nós mesmos do que em Cristo.

    Por fim descobri que o inverso é igualmente verdadeiro, e que, se amamos a Cristo, a Missa será também regulada por esse amor, e o altar nunca mais se transformará numa pista de corrida.

    Ontem à noite passei pelo salão paroquial, para ver os jovens da Ação católica ensaiarem um drama. O contra-regra repetia-lhes constantemente que não deviam correr: "Vocês acham que vão devagar - dizia-lhes - mas aqui fora parece que estão com pressa. Lembrem-se de que , para que os seus movimentos pareçam normais à assistência, vocês devem achá-los exageradamente lentos, até se habituarem".

    A Missa também é um drama, pensei de mim para mim. E seria bom que, pelo menos de vez em quando, houvesse um diretor de cena, sentado num banco, que me repreendesse.

    Fonte: Vaso de Argila

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    sexta-feira, 9 de setembro de 2011

    Ao Abrir o Missal


    8,00

    Por Padre Leo Trese

    Não demora muito a desdobrar os corporais e abrir o Missal sobre o altar. Mas também não demora muito a chegarem as distrações, como se estivesse à espreita da ação mais sagrada do dia para se lançarem ao ataque.

    Atiram-se como aviões de caça em vôo picado, depois de terem estado emboscados por trás de uma nuvem. Enquanto confiro as fitas do missal, percebo que começou a batalha diária entre distrações e a devoção. Posso prever até os seus maiores detalhes.

    Haverá um começo brioso, mas na altura em que tiver acabado o "Confesso a Deus todo-poderoso", lembrar-me-ei de repente de que me esqueci de telefonar ao presidente da Confraria do santo nome para avisá-lo da mudança do dia da reunião. Haverá talvez uns segundos de recolhimento quando tiver acabado de dizer "Oremos", mas, logo que abrir os braços para rezar a oração, perguntarei a mim mesmo se não será bom experimentar aqueles novos emplastos para calos que ontem vi anunciados numa farmácia.

    E assim continuará o augusto Sacrifício, ao longo de meia hora, entre triunfos e fracassos. Não há momento algum do dia, nem da vida, em que o sublime e o mesquinho se encontrem em tão espantoso contraste como na Missa. Ocorrem-me pensamentos inquietantes, vãos e disparatados, e, de vez em quando, até um ou outro que parece vir das mal-cheirosas profundezas do inferno; todos eles intrometendo-se na beleza do Prefácio, na solenidade do Pai Nosso.

    Ora, este é o único momento do dia que justifica a minha existência como sacerdote!

    Qualquer pessoa pode organizar associações, ensinar o Catecismo ou batizar; sim, e uma boa centena dos meus paroquianos pode estar rezando melhor que eu. A graça de Deus pode converter os pecadores, conquistar os hereges e fazer santos sem a minha ajuda. Mas nestes trinta tremendos minutos, que são eternos, Deus precisa de mim; só de mim; só eu posso oferecer o Sacrifício.

    E no entanto, aqui estou eu em pé diante do altar, pensando que não seria nada mau jantar esta noite salcichas alemãs com couve lombarda... O remédio é obvio: necessito de um maior espírito de oração. Os santos pouco se preocupavam com isso...Ou será que não? Todas as vidas de santos que li falavam de êxtases no altar e de rostos iluminados. Mas talvez essas biografias não tomassem em consideração todas as missas que os santos celebravam. Talvez também eles tivessem as suas dificuldades. Consola-me pensar nisso.

    Tenho também um momento de consolo com o pensamento de que ainda estou na via purificatica*. (A teologia ascética e mística chama "via purificativa" ao primeiro estágio da vida espiritual - etapa especialmente dedicada à purificação dos pecados e defeitos - que depois irá progredindo até a "via iluminativa" - em que Deus aumenta a visão da fé - e a "via unitiva" ou de mais perfeita união com Deus).

    Que outra coisa se pode esperar de mim? Mas o consolo desvanece-se logo, ao considerar que houve demasiada negligencia na minha vida. Não é que não tenha tentado emendar-me. Já venci o mau hábito dos meus primeiros tempos de sacerdócio, quando o horário sobrecarregado de missas aos domingos me obrigava a pronunciar as orações muito depressa e desalinhadamente.

    A minha língua não é muito expedita, e precisei de muitos meses de cuidadoso esforço para chegar a pronunciar tudo com exatidão e clareza. Invejei muitas vezes os meus colegas de palavra fácil, que celebravam a Missa em vinte minutos como quem bebe um copo de água. Não há dúvida de que os seus pensamentos seguiam passo a passo as consoantes pronunciadas a toda velocidade, mas eu nunca consegui fazer isso.

    Contudo, a mera resolução de estar atento às palavras não é suficiente, ao menos para mim. A opinião dos psicólogos de que o espírito humano não é capaz de concentrar-se num único ponto por mais de seis segundos encontra em mim plena confirmação. A minha defesa consistiu em criar aqui e acolá, durante a Missa, alguns ancoradouros onde fixar o meu espírito, se os meus pensamentos errantes me levarem de um lado para o outro.

    Um desses momentos de maior segurança com que posso contar é a conclusão exultante do Glória: "Só Vós, o Senhor; só Vós, o Altíssimo, Jesus Cristo". Por onde quer que meu espírito divague, estaca tão logo a presença do Rei se faz sentir nesta invocação majestosa. Há um outro momento semelhante no Santo; é impossível pensar em outra coisa quando os lábios pronunciam: "Bendito o que vem em nome do Senhor"!

    O rítmo, a ação e a impressionante solenidade da Consagração são remédio quase suficiente para as distrações. Quase, mas não completamente. Mais de uma vez tenho dado graças a Deus por ter renovado cuidadosamente a intenção antes da Missa*. (A consagração é válida se o sacerdote, antes da Missa, já tinha a intenção de consagrar, mesmo que, por qualquer circunstância, tenha depois a infelicidade de se distrair enquanto consagra a Hóstia e o Cálice)

    Há mais uma coisa que devo fazer necessariamente antes da Missa: enunciar um a um todos os vivos e defuntos que tenho de recordar particularmente. Os mementos destinados a isso dentro da Missa constituem muitas vezes uma armadilha para que a imaginação se derrame. Mas, por mais que divague, a minha atenção concentra-se profundamente no Pai Nosso, quando peço ao Senhor que venha a nós o seu reino e se faça a sua Vontade.

    E assim andará a minha Missa esta manhã, cairei com frequência, para, em breves instantes, me levantar. As resoluções falharão, a natureza decaída teimará, mas nenhum defeito poderá vencer a minha esperança.

    Sinto um rumor atrás de mim. Os coroinhas agitam-se. Meu Deus, esqueci que estive aqui como um hipócrita, de cabeça enterrada entre as mãos diante de vosso Crucifíxo!! Com um suspiro, desço os degraus do altar.

    Amo a minha Missa.

    Será para mim escuro e vazio o dia que começar sem ela. E, no entanto, quantas vezes os anjos em volta do altar não terão tido desejos de expulsar-me e tomar o meu lugar, ao surpreender-me pensando no jogo de futebol do dia seguinte, enquanto o Deus deles e meu esperava que O fizesse vir com a minha palavra!

    Bem, talvez hoje eu consiga estar um pouco mais atenção, um pouco mais devoto..."Em Nome do Pai, do Filho..."

    Fonte: Vaso de Argila

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    Immaculata mea

    In sobole Evam ad Mariam Virginem Matrem elegit Deus Filium suum. Gratia plena, optimi est a primo instanti suae conceptionis, redemptionis, ab omni originalis culpae labe praeservata ab omni peccato personali toto vita manebat.


    Cubra-me

    'A Lógica da Criação'


    Jesus, oculto na Hóstia, é tudo para mim




    “Se não fosse a Santa Comunhão, eu estaria caindo continuamente. A única coisa que me sustenta é a Santa Comunhão. Dela tiro forças, nela está o meu vigor. Tenho medo da vida, nos dias em que não recebo a Santa Comunhão. Tenho medo de mim mesma. Jesus, oculto na Hóstia, é tudo para mim. Do Sacrário tiro força, vigor, coragem e luz. Aí busco alívio nos momentos de aflição. Eu não saberia dar glória a Deus, se não tivesse a Eucaristia no meu coração.”



    (Diário de Santa Faustina, n. 1037)

    Ave-Maria

    A Paixão de Cristo