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domingo, 1 de dezembro de 2013

[Novo post] Excertos do ensaio “Escravos de Cuba” (e um pouco mais sobre o livro que nunca sai)




lucianohenrique publicou: " Quando eu anunciei que estava escrevendo um livro sobre ceticismo político, muitos leitores ficaram curiosos. Portanto é hora de eu lhes dar um update a respeito destes empreendimentos. Posso dizer que eu concluí um primeiro draft do "famoso" livro" 



Para responder a esta publicação digite acima desta linha 






Nova publicação em Ceticismo Político 











Quando eu anunciei que estava escrevendo um livro sobre ceticismo político, muitos leitores ficaram curiosos. Portanto é hora de eu lhes dar um update a respeito destes empreendimentos.

Posso dizer que eu concluí um primeiro draft do "famoso" livro, de 550 páginas, cujo tema é o ceticismo político. Mas lá eu já tratei um pouco do neo-iluminismo também. Basicamente, os dois paradigmas estão conectados. Eu ainda não sei se vou quebrá-lo em dois volumes, sendo um para o neo-iluminismo e outro para o ceticismo político. Pode ser que eu escreva mais sobre o ceticismo político, mas com certeza incluirei mais textos sobre neo-iluminismo. Se esse livro explodir em dois volumes, com 300 páginas cada, aproximadamente, eu ainda não tenho certeza.

Seja lá como for, resolvi retardar a publicação do livro sobre ceticismo político, que estava prevista para o final de 2013. Talvez ele surja em 2014, mas não tenho certeza.

E qual o motivo? É que eu preferi elaborar uma série de ensaios nos quais eu APLICO o ceticismo político, sob a perspectiva neo-iluminista, usando a dinâmica social. Isto é, se em um livro eu mostraria o que é este paradigma (e ainda estou aparando as arestas deste método), eu posso, nestes ensaios, já ir dando um gostinho aos leitores do que é a aplicação destes paradigmas, que, a meu ver, podem ser decisivos a nosso favor na guerra política. (Esses ensaios, aliás, podem ser tratados como mini-livros, pois possuem entre 150 e 250 paginas)

O primeiro destes ensaios é "Escravos de Cuba", que será lançado em formato virtual (assim como toda a série de ensaios) em 28 de novembro. Ou seja, daqui duas semanas. Os outros 3 serão lançados em 2014, e falarão, respectivamente, (1) das propostas do PT para censurar a mídia, (2) das trapaças do movimento LGBT e (3) dos truques para apologia e tolerância ao crime da esquerda. Em todos estes ensaios, há alguns padrões. Veja alguns deles: 
Não possuo respeito injustificado pelo esquerdismo. Assim trato-os com a assertividade necessária. 
As ações dos esquerdistas na defesa de suas ideias, com propostas totalitárias, tem sido tratadas, pelos autores de direita, como um elemento mostrando que a esquerda "vai vencer". Ao contrário: em meus textos, trato essa atitude como parte do problema, sempre pontuando a meu favor. Isto é, a cada vez que eles fizerem isso, me dão motivos adicionais em meus casos. Aprendi isso com Sam Harris. Ao invés dele temer os radicais islâmicos, quanto mais ameaçadores eles eram, com mais força eram denunciados. Se fizermos isso, a esquerda, especialmente a extrema-esquerda, pode ser vencida, pois ela ganha várias batalhas na ameaça e intimidação, assim como os radicais xiitas. 
A dialética de refutação que uso, em boa parte do tempo, é baseada em exposição de uma rotina, que está atrelada a um item de agenda ou a uma questão pública. Assim, para defender um crime, um esquerdista usará algumas rotinas. Para defender mensaleiros, eles usarão outras. E assim, sucessivamente. 
A refutação deve ser assertiva, mostrando ao leitor o absurdo da argumentação oponente. Se a argumentação desafia a razão, precisamos expor esse absurdo. Se não fizermos essa exposição, eles vencerão. 
A mensagem é clara: "É nossa responsabilidade desmascarar a esquerda". Se nós não assumirmos essa responsabilidade, temos que aceitar os méritos por termos contribuído com a vitória deles. 
No fim das contas, grande parte do meu empreendimento termina sendo um convite ao debate racional, mas também uma reação àqueles que não aceitam este debate racional. 

Enfim, chega de chorumelas, e aqui seguem dois excertos de "Escravos de Cuba", sendo a introdução e o capítulo 5, intitulado "Negacionismo da escravidão".

Introdução

Em meados de agosto de 2013, o PT recebeu uma saraivada de críticas após divulgar que importaria 4.000 médicos de Cuba. Em resposta, criaram a seguinte teoria: "os médicos brasileiros são racistas, xenófobos e desalmados pois criticam a importação de mão de obra vinda de Cuba, e, ao denunciarem a escravidão de cubanos, se tornam ainda mais racistas, xenófobos e desalmados, e isso vale para todos os que concordarem com os médicos brasileiros nesse protesto".

Pode-se questionar: mas a argumentação do PT é desse nível mesmo? É claro, mas você esperava o quê? Uma tese científica? Uma argumentação socrática? Mas deixe-me sair do resumo e dar-lhe uma visão mais panorâmica da coisa toda. (Importante: todas as citações deste ensaio referem-se a eventos ocorridos, em sua maior parte, entre agosto e outubro de 2013, salvo raras exceções. É por isso que quando eu mencionar uma data sem me referir ao ano, saiba que falo de 2013)

A matéria da Folha de São Paulo de 21 de agosto nos traz alguns detalhes[1] que são oportuníssimos antes de começarmos:


O Brasil vai receber até 4.000 médicos cubanos até o final de 2013, 400 deles imediatamente, dentro do programa federal Mais Médicos.

Segundo informou o Ministério da Saúde nesta quarta-feira (21 de agosto), eles não poderão escolher as cidades em que vão atuar: os primeiros 400 serão direcionados para 701 municípios que não foram escolhidos por nenhum profissional na primeira etapa do programa, 84% deles no Norte e no Nordeste do país.

Os que vierem nos próximos meses serão sempre distribuídos em cidades onde há sobra de vagas. A prioridade no programa continuará sendo dada a médicos brasileiros; em seguida aos formados no exterior e, por fim, aos cubanos.

Desde o início, a remuneração ridícula dos médicos cubanos foi contestada, o que já ficava bem claro no texto abaixo, da mesma matéria:


O governo brasileiro afirmou que vai repassar a Cuba, via OPAS, R$ 10 mil mensais por cada médico, mesmo valor pago aos médicos que se inscreveram individualmente no programa. Além disso, será repassado à Cuba uma ajuda de custo para instalação do médico no Brasil.

Padilha não soube dizer, no entanto, quanto será pago, de fato, ao médico cubano. Joaquin Molina, chefe da OPAS no Brasil, disse também não ter essa informação. O ministro afirmou que o governo brasileiro e a OPAS vão fiscalizar as condições de trabalho que serão dadas ao profissional.

O CFM (Conselho Federal de Medicina) classificou a decisão do governo brasileiro como "eleitoreira, irresponsável e desrespeitosa"[2]. Em uma nota de desagravo, eles disseram que "o Ministério da Saúde, ao promover a vinda de médicos cubanos sem a devida revalidação de seus diplomas e sem comprovar domínio do idioma português, desrespeita a legislação, fere os direitos humanos e coloca em risco a saúde dos brasileiros, especialmente os moradores das áreas mais pobres e distantes".

Mais:


Trata-se de uma medida que nada tem de improvisada, mas que foi planejada nos bastidores da cortina de fumaça do malfadado Programa "Mais Médicos". O anúncio de nesta quarta-feira (21 de agosto) coloca em evidência a real intenção do Governo de abrir as portas do país para profissionais formados em Cuba, sem qualquer avaliação de competência e capacidade. Estratégia semelhante já ocorreu na Venezuela e na Bolívia, com consequências graves para estes países e suas populações [...]

Vamos avançar dois meses no tempo, direto para 22 de outubro, quando a presidente Dilma Rousseff, ao sancionar o programa Mais Médicos, pediu desculpas ao médico cubano Juan Delgado, "em nome da nação brasileira"[3]:


Quero cumprimentar o Juan não apenas pelo fato dele ter sofrido um imenso constrangimento quando chegou, e por isso, do ponto de vista pessoal e do governo, peço nossas desculpas a ele (…)

Na mesma matéria, o ministro da saúde Alexandre Padilha mencionou supostos "vilões" que se opuseram a Delgado e seus colegas:


[Em direção a Delgado] Aquele corredor polonês da xenofobia que te recebeu em Fortaleza não representa o espírito nem do povo brasileiro nem da maioria dos médicos brasileiros.

Segundo Dilma, não apenas Delgado foi vítima de pessoas intransigentes, mas o mesmo se aplicou ao ministro Padilha:


Queria destacar a figura do ministro Padilha. Muitas vezes ele passou por situações similares à do Juan e manteve a sua postura firme. Uma pessoa que escutou tranquilamente as críticas, soube responder a elas com tranquilidade, demonstrou capacidade de diálogo.

Por que Dilma pediu desculpas a Juan Delgado? Falamos de desculpas legítimas ou de mais uma encenação política? De que "corredor polonês" Alexandre Padilha falava[4]? Ele realmente conseguiu provar que as críticas feitas à vinda dos médicos cubanos constituíam um "ato de xenofobia"? É verdade que Alexandre Padilha foi um argumentador aristotélico atacado por indivíduos intransigentes e sem vontade de dialogar?

Pois bem. Vamos retroceder quase dois meses no tempo, ou seja, quase uma semana após a divulgação das notícias da chegada dos 4.000 médicos cubanos – notícias estas que eu trouxe lá no comecinho. Isso permitirá que nós possamos compreender o que havia por trás de toda a encenação de Dilma e quais foram as artimanhas envolvidas em torno do ridículo ato de vitimismo que ela praticara.

Em 27 de agosto, 79 destes médicos cubanos desembarcaram no aeroporto de Fortaleza, no Ceará. Eles foram recebidos com vaias por um grupo de médicos brasileiros[5].

Com justiça, os manifestantes reclamavam devido ao dinheiro público destinado a pagar os médicos ir diretamente para Cuba, ao invés de parar de forma integral no bolso dos profissionais cubanos. Como agravante, já se percebia a inegável configuração de trabalho escravo, pois os cubanos chegaram sem ter direitos básicos como ficar com seu passaporte, abandonar seu país nativo definitivamente e até mesmo rejeitar o contrato. Como irregularidade pouca é bobagem, nenhum dos médicos cubanos passou pelo programa Revalida, que estipula exames obrigatórios de revalidação dos diplomas de profissionais do exterior para que suas credenciais tenham valor no Brasil[6].

Embora possamos definir a manifestação como um excesso (pois os médicos cubanos não são os culpados, mas sim o governo brasileiro em aliança com o governo cubano) e criticar os manifestantes por sua perda de foco, especialmente em termos de estratégia política, no âmbito moral nada justifica a ação tomada pelo PT a partir daí.

Em uma campanha de demonização e desumanização de dimensões surpreendentes até mesmo para os padrões da extrema-esquerda brasileira, a militância midiática do PT, junto com alguns líderes do partido, sabotou o debate sobre a questão cubana e resumiu toda e qualquer declaração de seus adeptos e membros a ações de difamação tanto dos médicos brasileiros como dos demais opositores à importação de médicos cubanos. Foi quando o discurso petralha[7] se limitou a um amontoado perverso de fraudes intelectuais, sempre apelando a campanhas baixíssimas de ódio adornadas com chantagens emocionais baratas, mas sem nenhuma discussão argumentativa legítima ou o menor apego aos fatos. A quantidade de mentiras divulgadas contra os opositores da importação de mão de obra escrava cubana foi tão grande que podemos suspeitar, de maneira justificada, que toda essa campanha foi arquitetada por mentes psicopáticas.

Como um ótimo exemplo para ilustrar a mitomania petista, tivemos a fama momentânea de Juan Delgado, do qual já falei momentos atrás. Ele se tornou famoso pela roupagem que o PT deu à manifestação dos médicos brasileiros. Enquanto estes protestavam contra o envio de verba pública para Cuba (e a contratação de escravos com este dinheiro), a permissão de médicos cubanos trabalharem sem o diploma revalidado e a ausência de melhorias na infraestrutura da saúde pública, todos os participantes da mídia petista argumentaram que os manifestantes eram racistas e xenófobos e, além de tudo, insensíveis à dor da população carente que não era atendida por médicos.

A divulgação da foto do cubano sendo vaiado foi apenas mais um exemplo desta campanha de propaganda[8]. Bastou que os petistas fizessem a divulgação dessa imagem aos quatro cantos, assim como terem existido manifestantes contra os médicos cubanos, para os líderes do partido e seus militantes decidirem tachar seus oponentes de racistas. A "lógica" do PT era clara: se Juan era negro e existiram manifestantes contra ele e seus colegas, então a manifestação ocorreu pelo fato dele ser negro. Foi quando um misto de hipocrisia desavergonhada com toda a chantagem emocional que um discurso indigno pode prover ditou as regras petistas para o debate.

Para termos uma ideia de quanto o PT, junto com sua militância, falsificou a realidade, vamos a um exemplo de Renato Rovai, editor da Revista Fórum, que publicou o seguinte texto em seu blog[9]:


A foto que está circulando hoje pela internet de um médico negro de Cuba sendo vaiado por jovens brancas de jaleco branco em Fortaleza é ilustrativa do significado da insana luta a que se dispuseram muitos de nossos doutores. Eles não estão lutando pela saúde da população, mas pelos seus interesses mais mesquinhos. E por isso não aceitam que um negrão cubano, que se brasileiro fosse serviria pra catar suas latas de lixo num caminhão de coleta ou ainda carregar fardos de carga num armazém, venha para o Brasil ocupar um espaço que, inclusive, ele não deseja.

Em um único parágrafo, Rovai tentou nos provar que tem o dom de ler a mente dos outros. Mesmo que os manifestantes afirmassem protestar contra uma aquisição de escravos moralmente abjeta, ele descobriu (será por telepatia?) que, na verdade, lá no fundo de suas mentes, protestavam por que o cubano era negro. Claro que ele precisou omitir uma verdade inconveniente: entre os médicos cubanos haviam brancos e negros, e entre os médicos brasileiros manifestantes haviam brancos e negros da mesma forma. Parece gozação, mas ele também afirmou que os manifestantes eram "brancos de jaleco branco", mas todos os médicos, independentemente de sua cor, usam jaleco branco. É preciso ter muita cara de pau para fingir que no aeroporto de Fortaleza ocorreu uma manifestação de brancos brasileiros contra negros cubanos por motivos raciais. Uma análise objetiva dos fatos nos mostra que não existiu evidência alguma de racismo ali.

Para não deixar dúvidas de que o texto de Rovai, assim como o de quase todos os jornalistas pró-PT, tinha intenção de criar um falso conflito de raças, segue a conclusão do mesmo artigo:


Essa foto fica pra história, como a daquelas dos navios negreiros. Mas neste caso, pelo seu inverso. Porque negros de Cuba aceitaram vir pra cá contribuir pra melhorar a vida de outros negros e brancos pobres. E foram açoitados pelas vaias de brancos e brancas que se lixam pra vida dessa enorme parcela da população. Porque eles são da Casa Grande. E a Casa Grande sempre se locupletou com a péssima qualidade de vida da senzala.

Trata-se do embaralhar e dar de novo em cima de rotinas nas quais os petistas acusam seus inimigos de racistas, e aqueles aos quais fingem defender de "vítimas de racismo", mesmo que omitam o fato de que as vaias foram direcionadas ao governo cubano. Ele talvez pudesse tentar dizer que vaiar Cuba é vaiar negros, mas tanto Fidel Castro como seu irmão Raul Castro não são negros. A presidente do Brasil Dilma Rousseff também não é negra.

Temos aqui a constatação de uma hipocrisia extrema: só por que em uma foto um jornalista conseguiu capturar a imagem de um negro sendo vaiado (mesmo que seu grupo fosse composto tanto de negros e brancos, assim como eram os manifestantes), Rovai convenceu sua plateia de que um crime de racismo foi cometido. Para isso foi preciso fazer uso de uma encenação digna de teatro, além de uma série de embustes retóricos, todos eles torpes e rasteiros.

Na caixa de comentários do mesmo blog, vemos, porém, que Rovai não se trata de um estúpido enlouquecido, mas de um estrategista político que baseou toda sua estratégia em difamar os oponentes. Suas mentiras tinham um objetivo claro: satanizar os adversários do PT e todos aqueles que protestavam contra a importação de médicos cubanos patrocinada pelo partido, para, enfim, travar o debate e evitar discutir as questões de fato. Em prol de seu intento, Rovai maquiou todas as situações para chamar seus adversários de racistas, xenófobos e insensíveis.

Tudo isso seriam meras palavras em um discurso contra oponentes, não fosse o fato de que suas ações discursivas serviam como estímulo para que seus leitores reagissem com ódio profundo contra os críticos da importação dos médicos cubanos. Para termos uma demonstração mais clara e cristalina desse tipo de efeito conquistado por Rovai, basta observarmos a reação de alguns comentaristas na mesma matéria. Alguns exemplos: 
Eugenio: "O que esse monte de fascistas de branco está querendo é a garantia da continuidade de médicos irem assinar o ponto em hospital público e, logo em seguida, ir atender em clínicas particulares, com a maior cara de pau, como já foi demonstrado no RJ. Pior que a intolerância, só o cinismo e a falta de respeito com os pacientes do SUS desses caras…" 
Sofia: "Verdade meu amigo, fora que como não temos recurso para pagar a clínica destes bonecos que se acham deuses, ainda servimos de experiência quando vamos a um hospital escola." 
Fábio: "Errado. Isto não foi apenas intolerância. Foi uma clara demonstração de racismo e racismo, meus caros, é crime. Estas pessoas deveriam ser identificadas e indiciadas por racismo na Delegacia mais próxima. Rigor policial é coisa que a elite brasileira também tem que começar a receber." 
Antonia: "Amo meu Brasil hoje, em tempos de Dilma e PT porque esta elite branca, arrogante, preconceituosa e hostil tem que engolir a grandeza da cidadania para todos, nem que desça rasgando, mas vai descer sim. Estes médicos metidos a besta vão ter que engolir sim que a medicina é um trabalho humano e não uma vitrine para expor a brancura, a insensatez e falta de humanismo dos médicos que se acham. Em Cuba e em toda parte do mundo todos podem estudar independentemente da cor ou da origem social. Um dia chegaremos lá. Viva a democracia, viva a vida e mais. Meu Deus perdoa aquele/as que não sabem o que fazem ou que dizem para que ainda nesta vida eles/as se reencontrem para não reencarnar para sofrerem e fazer mais gente sofrer. Perdoa-lhes PAI." 
Gisela: "Fica difícil dialogar com os colegas médicos. Virou uma luta política mesquinha e quem se prejudica é o povo. Esse povo sofrido que não aguenta mais que o médico nem olhe na sua cara. Sou médica e sou tida como "melhor" por que olho as pessoas e pego nelas. Só por isso! Não é justo! Me sinto mal demais por isso tudo e me envergonho por essa atitude racista, corporativista, sectária, fascista e xenófoba. Como nordestina, mais ainda, não posso corroborar para esse tipo de reação. Mas vejo uma loucura tão grande de fatos e artigos não fundamentados que fico atordoada. Desculpem-nos!" 
Francisco: "Também sou médico, colega Gisela e estou passando pelo mesmo que você. Agora vi que não somos iguais aos do mercado, aos fascitóides de branco que ainda não aprenderam o que é necessidade e não têm o mínimo compromisso com a dignidade humana, com a educação (porque não têm) e manifestam claramente suas mesquinharias com posturas racistas e próprias de um elitismo econômico vazio e indigno." 
Olívia: "Que vergonha! Inimaginável que os manifestantes sejam médicos, formados para promover e preservar a vida. Que horror! Racistas, burgueses, doutores da arrogância. Tratando com fúria àqueles que se dispõe a atender a população carente do nosso país. Recusam-se a trabalhar em locais distantes e não querem que outro o façam. Mais que lamentável, é execrável." 

Todas essas mensagens são evidências irrefutáveis da execução bem sucedida de uma estratégia: mentir sobre oponentes, propagando campanhas de ódio, não passa de uma manobra para interditar qualquer discussão sobre uma importantíssima questão pública e ainda capitalizar politicamente mesmo na defesa de ideias monstruosas, como a importação de mão de obra escrava.

Em um artigo brilhante, o filósofo Luiz Felipe Pondé define os médicos brasileiros como os "judeus do PT"[10]:


O PT está usando uma tática de difamação contra os médicos brasileiros igual à usada pelos nazistas contra os judeus: colando neles a imagem de interesseiros e insensíveis ao sofrimento do povo e, com isso, fazendo com que as pessoas acreditem que a reação dos médicos brasileiros é fruto de reserva de mercado. Os médicos brasileiros viraram os "judeus do PT". Uma pergunta que não quer calar é por que justamente agora o governo "descobriu" que existem áreas do Brasil que precisam de médicos? Seria porque o governo quer aproveitar a instabilidade das manifestações para criar um bode expiatório? Pura retórica fascista e comunista. E por que os médicos brasileiros "não querem ir"? A resposta é outra pergunta: por que o governo do PT não investiu numa medicina no interior do país com sustentação técnica e de pessoal necessária, à semelhança do investimento no poder jurídico (mais barato)?

É claro que essa "preocupação com os pobres" alegada pelos petistas, junto com a difamação de oponentes de forma desonesta, levanta suspeitas. Estas suspeitas nos estimulam a investigar os argumentos petistas com um olhar mais clínico. Com seus questionamentos, Pondé nos motiva a cavar mais fundo. Ele prossegue:


A população já é desinformada sobre a vida dos médicos, achando que são todos uns milionários, quando a maioria esmagadora trabalha sob forte pressão e desvalorização salarial. A ideia de que médicos ganham muito é uma mentira. A formação é cara, longa, competitiva, incerta, violenta, difícil, estressante, e a oferta de emprego decente está aquém do investimento na formação. Ganha-se menos do que a profissão exige em termos de responsabilidade prática e do desgaste que a formação implica, para não falar do desgaste do cotidiano. Os médicos são obrigados a ter vários empregos e a trabalhar correndo para poder pagar suas contas e as das suas famílias. Trabalha-se muito, sob o olhar duro da população. As pessoas pensam que os médicos são os culpados de a saúde ser um lixo. Assim como os judeus foram o bode expiatório dos nazistas, os médicos brasileiros estão sendo oferecidos como causa do sofrimento da população. Um escândalo.

Não é preciso pensar muito para notar que Pondé é extremamente lúcido, lançando objeções incômodas aos propagandistas do PT. Estes últimos, obviamente, não gostaram destes questionamentos e tentaram desqualificar o argumento de Pondé com uma nova fraude intelectual. Um texto de Kiko Nogueira, mais um petista exacerbado, não tem medo de chafurdar na lama. Intitulado "Pondé deu o argumento final a favor do Mais Médicos"[11] e publicado no blog Diário do Centro do Mundo, é um exemplo de mendacidade em níveis estratosféricos:


Mas o tiro no pé [de Pondé] é o paralelo com o nazismo, um legítimo, clássico, fiel, perfeito representante da "Lei de Godwin" (ou do que se chama "reductio ad Hitlerum"). Mike Godwin é um advogado americano que ficou famoso ao formular um paradigma nos anos 90: "Enquanto uma discussão na Internet aumenta, a probabilidade de uma comparação envolvendo Hitler e os nazistas se aproxima de 100%". Ao chegar a esse extremo absurdo, a conversa termina. Hoje a máxima de Godwin serve para debates em qualquer fórum. Quando alguém se refere ao nazismo é porque não há mais argumentos. É o fim da linha — o que pode vir depois do mal absoluto? Entregou os pontos. O "reductio ad Hitlerum" é criação do professor Leo Strauss, da Universidade de Chicago, e tem o mesmo sentido (a expressão é uma adaptação marota de "reductio ad absurdum"). Quando não se há mais o que dizer, quando a coisa fugiu ao controle, surge a cartada nazista. Pronto. Discussão perdida. (É mais ou menos quando você tenta convencer aquele seu amigo bêbado a parar de tomar cachaça porque ele fica inconveniente: "Hitler tomava cachaça!". Desespero puro). Godwin disse numa entrevista recente: "É a pior coisa que se pode pensar. Se você está numa escalada retórica com alguém, é fácil recorrer a isso quando não está refletindo sobre suas palavras". O que Pondé fez foi enterrar seu ponto de vista sob uma falácia.

Kiko Nogueira apela para aquilo que podemos chamar de falsa identificação de falácia. De fato a falácia Ad Hitlerum existe e muitas vezes ela é praticada principalmente em debates de Internet[12]. Mas o Ad Hitlerum não é configurado pela comparação de atitudes totalitárias de políticos e engenheiros sociais de massa com as práticas dos propagandistas de Hitler. O próprio exemplo onde ele cita a expressão "Hitler tomava cachaça", usada para convencer um amigo a parar de beber, é uma prática do Ad Hitlerum. Entretanto, citar de forma justificada elementos do nazismo facilmente comparáveis a um fenômeno social que estamos estudando não é.

Não há um estudo sério sobre propaganda política desonesta que não trate tanto das práticas stalinistas como das práticas hitleristas. Quem quer que deseje estudar propaganda política e não estude a prática de propaganda desses dois regimes está perdendo boa parte do conhecimento histórico, especialmente quando tratamos de investigações sobre totalitarismo. Recobrar esse aspecto da propaganda de esquerda faz parte da obtenção de um conjunto vital de conhecimentos utilíssimos para entendermos e combatermos tiranias. É isso que Pondé faz de forma legítima ao estudar o fenômeno político de estipulação de uma classe de pessoas como bodes expiatórios, praticada pelo governo brasileiro e seus agentes de mídia de forma similar ao que a mídia em prol do governo nazista fez contra os judeus, culpando-os por todos os problemas do mundo e tachando-os de insensíveis ao sofrimento humano[13].

Tanto o comportamento de Roberto Rovai como o de Kiko Nogueira são sintomas de uma forma abjeta de se fazer política, mentindo em quantidade tão volumosa a fim de que o oponente desista de contra argumentar pelo tanto de desmentidos que precisará fazer.

Para facilitar o dia a dia daquele que quiser enfrentar os petistas em debates públicos ou ao menos entender de fato a questão da importação de médicos cubanos, este ensaio tem como objetivo catalogar as principais mentiras praticadas pelos políticos, jornalistas e intelectuais orgânicos do PT tentando defender a importação de mão de obra escrava. Mesmo que todo o discurso deles na questão cubana seja um aglomerado absurdo de artimanhas fétidas, petistas ainda conseguem obter sua paga política pela ausência de esforço de seus adversários na refutação assertiva a essas fraudes.

Contudo, qualquer um que tenha interesse legítimo em conhecer a verdade se sentirá incomodado com tantas mentiras propagadas em tão curto espaço de tempo - a medida da importação de médicos cubanos foi divulgada em meados de agosto de 2013, e quase todos os discursos petistas esmiuçados neste ensaio ocorreram até meados do mês de outubro. Nota-se que em um período curto (dois meses), todo o conteúdo fraudulento usado pelo PT nos debates públicos para discutir a questão foi desenvolvido, mimetizado pelos adeptos e utilizado em quantidades industriais na mídia e nas redes sociais. Veremos que a maioria das afirmações de petistas e seus adeptos quanto a questão cubana pode ser definida como discurso ruminante: mastiga-se várias vezes, mas não dá para engolir.

Algumas dessas mentiras são erros lógicos gritantes, mas a maioria é composta de discursos arquitetados de forma cínica para impedir as mais relevantes discussões morais sobre o assunto.

Quando falamos de questões públicas, nem deveria ser preciso expor o óbvio: temos dinheiro público envolvido. Nossos impostos estão em jogo, e a forma como esse dinheiro é usado deveria tornar as questões morais envolvidas ainda mais relevantes, pois, se o dinheiro é nosso, não deveria ser usado para promover barbáries. Mas se um grupo utiliza mentiras de forma deliberada para omitir os principais aspectos do debate (como, por exemplo, o envio de dinheiro público para uma ditadura sanguinária), nós não estamos mais apenas tratando da exposição de ideias em um fórum. Estamos nos defrontando com praticantes de crimes morais.

Em uma sociedade civil, sempre que os cidadãos são impedidos de conhecer a verdade dos fatos de forma intencional por um dos lados da discussão, temos um crime moral composto pela divulgação de informação falsa para turvar a capacidade da população na tomada de decisões sobre as questões públicas.

Em uma democracia, os cidadãos devem ter a capacidade de tomar decisões com base em sua consciência, mas esta capacidade é seriamente danificada quando somos expostos à informação fraudulenta. Também é verdade que em uma democracia dependemos da participação dos cidadãos nas decisões sobre o estado, mas se esta capacidade de tomada de decisões está comprometida pela desinformação, a própria democracia está ameaçada.

Este ensaio é focado na refutação das principais fraudes intelectuais lançadas por petistas e seus adeptos para evitar o diálogo sobre questões vitais para a saúde pública, como a avaliação moral da importação de escravos, a responsabilidade pelo atual estado precário da saúde brasileira e o lamentável tratamento que o governo brasileiro tem dado às reinvindicações dos nossos médicos. Nos vários exemplos trazidos aqui, sempre expondo os discursos petistas, deixarei bem claro que eles se recusaram a tocar nos assuntos acima. Por que fizeram isso, se esses pontos são os mais relevantes na discussão do problema da saúde pública no Brasil?

Não há dúvidas de que no debate público a principal meta do PT e seus militantes foi interditar todas as discussões relevantes sobre o problema da saúde pública. Tudo é agravado pelo fato dessa campanha ter ido ao fundo do poço na prática de propaganda difamatória e desonesta contra os médicos brasileiros. Se há um grupo mentindo de forma planejada enquanto pratica atrocidades morais, isso requer uma exposição impiedosa, exatamente pelos motivos que acabei de apontar: em uma democracia, as pessoas devem ter o direito de saber a verdade sobre as questões públicas, caso contrário sua capacidade de tomada de decisões estará comprometida, e, em consequência, sua capacidade de participação. A partir disso, a democracia deixa de fazer sentido.

Lutar para que isso não aconteça é um esforço hercúleo, mas que precisa ser feito, independentemente de termos certeza de nosso sucesso ou não quanto a derrotarmos fraudadores intelectuais contumazes. Se ao final deste ensaio você estiver preparado para refutar as principais mentiras petistas relativas à questão cubana, terei obtido sucesso.

5. Negacionismo da escravidão

Há uma regra importante para auditores: toda fraude executada precisará de novas fraudes para se sustentar.

Imagine, por exemplo, que o diretor de uma ONG seja descoberto falsificando os registros contábeis para embolsar uma grana. Esta é uma fraude executada. Se descoberto, ele precisará de novas fraudes, seja no nível intelectual (ou seja, mentiras) ou mesmo no nível contábil (no caso, para esconder as evidências da fraude inicial), de forma a tentar atribuir alguma moralidade ao seu ato fraudulento inicial ou ao menos escondê-lo. Esta dinâmica explica por que todo o discurso do PT e seus militantes na questão cubana não passa de um empilhamento kafkiano de fraudes intelectuais, pois a proposta inicial já é uma aberração ética e moral, que só pode ser defendida com uma nova coleção de fraudes para turvar a percepção da audiência.

Os petistas não podem negar que estão contratando trabalho escravo de um governo moralmente abjeto, o governo cubano. É evidente que o governo brasileiro comete uma falha moral gravíssima ao endossar uma ditadura sanguinária fundada em barbarismo e opressão de seres humanos, obrigados a trabalhar em regime de escravidão. Qualquer defesa a esse tipo de situação implicará na confecção de novas fraudes intelectuais, pois advogar pela importação de escravos é defender o que não tem defesa.

É por isso que o esforço de refutar as fraudes desta categoria foi, para mim, o mais divertido em todo meu empreendimento, pois chegamos a sentir vergonha alheia ao vê-los praticar toda uma série de macaqueamentos na tentativa de transformar uma monstruosidade moral em algo digerível para seu público.

O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, diz que é justo que o governo cubano fique com boa parte do dinheiro ganho pelos médicos, pois "investiu neles"[78]:


Cuba investiu muito nesses médicos, Cuba fez uma prioridade para a saúde. Nós entendemos que é justo que o povo cubano, que [se] sacrificou pela formação desses médicos, tenha também a possibilidade de auferir dos rendimentos que esses médicos têm hoje no país.

A cada enxadada, uma minhoca. Basta um petralha abrir a boca tentando justificar o aluguel de escravos cubanos que vomitam um disparate.

Na lógica de Carvalho, um estado que gasta com o serviço público, tem o direito de ser dono dos usuários deste serviço, podendo revender os serviços destes indivíduos até que se aposentem. Talvez Carvalho discursava em piloto automático e com o cérebro em ponto morto, pois, sem querer, ele confessou que Cuba pratica trabalho escravo (que é exatamente o que está sendo denunciado pelos que não entraram no jogo socialista do governo, e é exatamente o que o PT quer negar). Veja o que diz o artigo 149 do Código Penal, do Decreto Lei nº 2848 de 7 de dezembro de 1940, que define os elementos do trabalho escravo:


Art. 149. Reduzir alguém a condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto: (Redação dada pela Lei nº 10.803, de 11.12.2003)

Pena - reclusão, de dois a oito anos, e multa, além da pena correspondente à violência. (Redação dada pela Lei nº 10.803, de 11.12.2003)

§ 1o Nas mesmas penas incorre quem: (Incluído pela Lei nº 10.803, de 11.12.2003)

I - cerceia o uso de qualquer meio de transporte por parte do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho; (Incluído pela Lei nº 10.803, de 11.12.2003)

II - mantém vigilância ostensiva no local de trabalho ou se apodera de documentos ou objetos pessoais do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho. (Incluído pela Lei nº 10.803, de 11.12.2003)

§ 2o A pena é aumentada de metade, se o crime é cometido: (Incluído pela Lei nº 10.803, de 11.12.2003)

I - contra criança ou adolescente; (Incluído pela Lei nº 10.803, de 11.12.2003)

II - por motivo de preconceito de raça, cor, etnia, religião ou origem. (Incluído pela Lei nº 10.803, de 11.12.2003)

Segundo Carvalho nos diz, os médicos cubanos recebem um "investimento" do governo cubano, ganhando "de presente" o ensino em uma universidade cubana. A partir daí, contraem uma dívida com o estado, e são obrigados a pagar com seu trabalho até a aposentadoria, recebendo uma minguada parte do que geram. É, Carvalho, devia ter ficado de boca calada nessa…

Tudo é agravado pelo fato da população cubana "investir" no estado, sendo obrigada a pagar impostos altíssimos e injustificados via coerção estatal. A regra cubana, conforme o próprio Carvalho a interpreta, nos diz que o cidadão cubano, além de sofrer coerção do estado para o pagamento de impostos abusivos, ainda se torna um escravo caso receba ensino deste estado.

Fica claro que definir Cuba como o inferno na terra não é um exagero. Agora entende-se por que ninguém quer se mudar pra lá (nem mesmo os petralhas, que viajam uns tempos para Cuba, falam do "paraíso cubano", mas jamais se mudam em definitivo para o país), e quem pode fugir é um felizardo. E tudo, conforme a ótica de Carvalho, muito "justo". Dá para respeitar moralmente uma figura dessas? Claro que não.

Mesmo assim, Alexandre Padilha garante que os médicos cubanos não atuam sob trabalho escravo, lançando a rotina afirmando que "médicos cubanos não são escravos pois tem carreira e vínculo permanente com Cuba"[79]. Eis a argumentação, tão grotesca quanto ofensiva:


Os médicos cubanos têm uma carreira e vínculo permanente com Cuba, o fato de virem em uma missão internacional faz com que os salários deles aumente, é um bônus no salário além da remuneração que vão ter aqui, diferentemente de outros médicos estrangeiros que vêm para cá [Brasil] e não têm emprego no país de origem.

Parece mentira, mas ao tentar se defender, Padilha se lambuzou ainda mais, pois "vínculo permanente" não é coerente com trabalho livre. É exatamente por isso que os argumentos contra a antiga lei do passe no futebol citavam sempre a escravidão, pois nenhum profissional pode ter "vínculo permanente" com empresa alguma. Os contratos dos jogadores de futebol hoje são limitados a cinco anos. Quer dizer, se algum clube contratar um jogador por 10 milhões de dólares, poderá fazer um contrato de no máximo 5 anos com ele, exatamente por que vínculos permanentes de um profissional com uma organização (qualquer que seja ela) não são condizentes com trabalho livre. Não há argumento de defesa para a hipótese contrária. Lembrando que ainda temos um atenuante na questão dos jogadores de futebol, pois estes ainda podiam abandonar o futebol e buscar outra carreira, e só tinham vínculo permanente com o clube que detinha o seu passe para a atuação futebolística. Já no caso dos médicos cubanos, nenhum deles pode dizer ao governo que quer abandonar a profissão de médico para se tornar vendedor de cachorro-quente na Austrália, por exemplo.

Essa conversa mole dizendo que eles "tem emprego garantido" também não engana ninguém. Mesmo que o emprego "esteja garantido", em uma sociedade civil (coisa que Cuba não é) o trabalhador deve ter o direito de abandoná-lo, de acordo com as cláusulas contratuais que não podem estabelecer nenhuma forma de vínculo permanente. Simples assim.

Em uma manobra de inversão da realidade, o Brasil247 tentou dramatizar o fato da jornalista Eliane Cantanhêde ter comparado o avião de médicos cubanos com um navio negreiro. Como vimos no capítulo anterior, isso deu espaço para petistas gritarem "racismo, racismo" feito loucos de pedra, mas o verdadeiro fenômeno da boçalidade ocorreu quando eles tentaram distorcer todos os valores possíveis e imagináveis, lançando a rotina afirmando que "médicos cubanos não são escravos, pois escravos são aqueles que criticam essa contratação, pois são obrigados por seus patrões a criticar a contratação de cubanos". Acredite se quiser, eles escreveram o texto abaixo, intitulado "Quem é mesmo a escrava?", para o qual pinçarei as partes mais desavergonhadas[80]:


A negra Natasha Romero Sanches, de 44 anos, é uma doutora cubana [...] Indagada por jornalistas sobre o fato de parte da sua bolsa de R$ 10 mil ser apropriada pelo governo cubano, ela não se queixou. "O meu salário é suficiente", disse ela, afirmando ainda que trabalha por amor e pela vocação de salvar vidas [...]

Aos olhos da jornalista Eliane Cantanhêde, a doutora Natasha é uma escrava. Veio ao Brasil não num voo comercial, mas num "avião negreiro" [...]

É possível que esses colunistas [Eliane, Reinaldo Azevedo, Ricardo Noblat, Augusto Nunes, Sandro Vaia] realmente acreditem que os médicos cubanos foram escravizados pelos irmãos Castro. E que o Brasil, sob as garras do PT, se converteu numa brutal tirania que trafica pessoas – argumento que se enfraquece diante do fato de que dezenas de países já assinaram convênios semelhantes para a importação de médicos com o governo cubano.

Evidentemente, a doutora Natasha não é uma escrava, assim como os outros médicos de Cuba que chegaram ao Brasil neste sábado [...] O que todos eles pediram na chegada foi apenas respeito, para que possam desempenhar bem as suas funções [...]

Mas será que Eliane Cantanhêde e seus colegas são realmente pessoas livres? Eliane, por exemplo, se vê forçada a criticar qualquer iniciativa vinculada ao Partido dos Trabalhadores e até a inventar crises inexistentes [...]

Ocorre que, muitas vezes, eles [os colunistas que não são da extrema-esquerda, ou seja, Eliane, Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes e os outros citados aqui] apenas vocalizam interesses econômicos, políticos ou comerciais não deles – mas dos seus patrões. Barões midiáticos que, num sistema ainda concentrado como o brasileiro, distorcem o fluxo das informações. Basta dizer que, entre os dez homens mais ricos do País, quatro são ligados a grandes grupos de comunicação.

É possível que a doutora Natasha não desfrute de toda a liberdade que gostaria de ter. Mas não se pode descartar a hipótese de que ela seja uma mulher mais livre do que Eliane e seus colegas que a veem como uma escrava.

O Brasil247 cometeu algo que eu achava que jamais teriam a cara de pau de fazer: usar a novilíngua de forma explícita e do jeito mais involuntariamente cômico possível, sem medo do ridículo.

Quando o site Vanguarda Popular citou Orwell[81], dizendo "Guerra é paz, Liberdade é escravidão, Ignorância é Força", não era para que os esquerdistas fizessem exatamente o mesmo. A ideia ali era uma sátira. Parece que o pessoal do Brasil247 não percebeu a sutileza da piada e a levou a sério, especialmente quanto ao lema "liberdade é escravidão".

O texto que fizeram é de uma estupidez atordoante. Eles simplesmente tentaram nos vender a ideia de que a cubana Natasha, ao dizer que seu "salário é suficiente", não é uma escrava, mesmo estando presa a um país do qual não pode fugir. Seu discurso é evidentemente uma expressão do medo de prisioneiros de uma ilha dominada por governantes impudicos. Mas ela seria, na ótica desvairada do Brasil247, uma pessoa livre, mesmo que "não desfrute de toda a liberdade que gostaria de ter". Como é que é? Ela é livre mas não tem a liberdade que gostaria de ter? Que tipo de liberdade é definida por critérios alheios ao da vontade individual em questões onde não existem danos a terceiros? É claro que a mente socialista entra em colapso quando tentam explicar seus conceitos de liberdade a pessoas normais.

O site também diz que a jornalista Eliane Cantanhêde não é uma pessoa livre, pois é "forçada a criticar o PT". Mas de onde o Brasil247 tirou a ideia de que ela é "forçada" a isso? Leitura mental? Se for esse o nível de argumentação do Brasil247, então poderíamos dizer que eles são "obrigados a elogiar o PT"? Nada mais ridículo, pois tanto os colunistas do Brasil247 como a Eliane Cantanhêde ainda teriam opções no mercado. (E note que o Brasil247 nem sequer provou que Eliane escreve contra suas próprias convicções)

Supondo, a título de argumento, que Eliane realmente fosse "forçada a escrever contra suas convicções", ainda assim, nessa hipótese demencial do Brasil247, ela ainda pode optar por sair do Brasil, ir para um país europeu ou para os Estados Unidos, se for aceita, e não precisa mais comentar sobre qualquer assunto da política nacional. Também pode mudar de profissão e escolher o emprego que quiser. Ela também pode ter todas essas opções mesmo sem sair do Brasil. Ficando no Brasil, ela também pode se converter ao petismo exacerbado e virar colunista do Brasil247. Isso a torna uma pessoa livre. Natasha não tem esse direito, pelo seu vínculo permanente com Cuba, conforme o próprio ministro Padilha confessou. Não há açúcar que adoce a argumentação do Brasil247, e até mesmo o mais abnegado petista terá que reconhecer isso. Eles copiaram a novilíngua denunciada por Orwell à risca, mesmo sem perceber que inversões desse tipo só merecem a qualificação de humor involuntário.

Leonardo Sakamoto é outro adepto da extrema-esquerda petista que fez carreira em ONGs que lutam contra o trabalho escravo. Desde que o trabalho escravo não seja contratado pelo PT, naturalmente. Sua argumentação é mais uma daquelas que nos suscita dúvidas: ou ele é um psicopata desonesto ou alguém iludido além de qualquer esperança de recuperação. Segundo Sakamoto[82], a contratação de médicos cubanos não é trabalho escravo. O problema é que a argumentação dele em favor dessa tese é um desastre lógico de proporções apocalípticas.

Ele começa citando José Guerra, secretário-executivo da Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo, que disse: "Acho difícil acreditar que a Organização Pan-Americana de Saúde validaria uma experiência com mão de obra escrava". Mas isso não passa da famosa falácia do apelo à autoridade, que pode ser transposta neste silogismo: "A OPAS é associada a ONU, que é do bem. A OPAS não endossaria a importação de mão de obra escrava, que é coisa maligna. Quem é do bem não faz coisa maligna. Logo, não há importação de mão de obra escrava". Mas a verdade é que o acordo gerou 400 milhões ao governo de Cuba. Desse valor, 24,3 milhões ficarão com a OPAS, que entra como atravessadora no negócio, basicamente para dar legitimidade a toda essa baixaria[83]. Colocar a OPAS, que recebe seu quinhão, como validadora da moralidade dessa importação de gente é no mínimo ofender a inteligência do leitor. Em tempo: quando Sakamoto diz que "acha difícil acreditar que a OPAS validaria uma experiência com mão de obra escrava", usa a falácia da incredulidade pessoal. Exemplo: "Duvido que Joselito cometeu tal delito, pois acho difícil acreditar que ele tenha cometido". Sakamoto, tenha dó...

Ele também declara que de acordo com o artigo 149 do Código Penal, não estão atendidos os critérios para definir a importação de médicos cubanos como trabalho escravo. Vamos rever estes itens[84]:


[...] submeter o trabalhador a trabalhos forçados; submeter o trabalhador a jornada exaustiva; sujeitar o trabalhador a condições degradantes de trabalho; restringir, por qualquer meio, a locomoção do trabalhador em razão de dívida contraída com o empregador; restringir, por qualquer meio, a locomoção do trabalhador em razão de dívida contraída com preposto do empregador; cercear o uso de qualquer meio de transporte por parte do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho; manter vigilância ostensiva no local de trabalho, com o fim de retê-lo no local de trabalho; apoderar-se de documentos pessoais do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho; apoderar-se de objetos pessoais do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho.

Sakamoto é um excelente retórico, mas um argumentador fajuto, pois não notou um problema fulcral: teremos vários médicos do programa Mais Médicos recebendo R$ 10.000,00 por mês, assim como médicos de outros países recebendo o mesmo valor. Enquanto isso, os médicos cubanos receberão uma ínfima parcela do mesmo valor que é pago aos demais, sendo que a maior parte ficará com Cuba. Isso já é submeter o sujeito à uma condição degradante de trabalho, humilhando-o em relação a todos os demais médicos do programa. Por que o médico cubano merece tão pouco, em comparação aos demais médicos? Além do mais, por que eles não poderão ficar no Brasil ao fim do programa? Sem deixamos de notar que existe o vínculo permanente destes cubanos com o governo cubano por que contraíram uma dívida por causa do ensino "gratuito" que receberam. Além do mais, todos eles chegam ao Brasil com passaportes retidos, para evitar que fujam do Brasil[85]. Como se percebe, o petralha não ficará corado em submeter o médico cubano a uma situação extremamente humilhante e indigna, discriminá-lo perante outros profissionais que fazem a mesma função, reter seus documentos e obrigá-lo a manter um vínculo permanente e injustificado por ocasião de dívida com o estado cubano, mas, mesmo assim, dizer que é contra o trabalho escravo. Sakamoto simplesmente redefine a palavra hipocrisia.

E agora de novo um material vindo do Brasil247? Sim, de novo, pois é a hora de desconstruirmos o texto de Hélio Doyle, intitulado "Entenda por que os médicos cubanos não são escravos"[86]. Na questão do negacionismo, sua rotina central é a mais engraçada e grotesca: "Os médicos cubanos não são escravos pois é uma contratação análoga à prestação de serviços terceirizados". Na implementação desta rotina Doyle comete tantas, mas tantas fraudes intelectuais, que aquele não acostumado com o jeitão da militância petralha poderia ficar impressionado e até desistir logo de primeira.

Pior que uma piada de mau gosto, é uma piada de mau gosto levada a sério. Doyle se apresenta como "especialista em assuntos cubanos", mas não passa de mais alguém que atua para o PT, sendo respeitado pelo partido por seus esforços ajudando-os a tentar censurar a mídia[87]. Claro que isso não é motivo para desqualificarmos seus argumentos, mas diante de um discurso não apenas falso em todos os níveis como tão escandalosamente imoral que mereceria até um pedido de desculpas por parte do PT, temos que investigar o conteúdo discursivo de Doyle com mais atenção.

Hora de começar:


A revalidação de diploma também não é argumento, pois os médicos estrangeiros trabalharão em atividades definidas e por tempo determinado, nos termos do programa do governo federal.

Claro que é argumento, pois se os médicos trabalharão em atividades definidas e por tempo determinado, temos um motivo adicional para que eles revalidassem seus diplomas, pois temos pessoas chegando para trabalhar e não temos nenhuma informação sobre a competência delas. Imagine que temos uma linha de profissionais em gestão de projetos que vão prestar serviços de forma temporária. Suponha que é um critério de uma organização ter todos os profissionais certificados em PMP. Qual é o argumento para dizer que "a regra não se aplica a profissionais que atuarão temporariamente"? Essa regra simplesmente não existe. Pelo contrário: ela é aplicada em especial aos profissionais temporários. E todos os profissionais, temporários ou definitivos, devem ter a chance de demonstrar sua qualificação. Isso, é claro, se eles forem livres. E, ao que parece, Doyle não percebeu que este é o assunto sob discussão. Lamentável, lamentável.

Para tentar provar que não existe trabalho escravo no caso dos cubanos, ele usa duas comparações grotescas.

Vamos à primeira:


1 – Uma empreiteira brasileira é contratada por um governo de país europeu para uma obra. Essa empreiteira vai receber euros por esse trabalho e levar àquele país, por tempo determinado, alguns engenheiros, geólogos, operários especializados e funcionários administrativos, todos eles empregados na empreiteira no Brasil. Encerrado o contrato no país europeu, todos voltarão ao Brasil com seus empregos assegurados. Quem vai definir a remuneração desses empregados da empreiteira e pagá-los, ela ou o governo do país europeu? É óbvio que é a empreiteira.

No estágio em que a distorção da realidade feita pelos petistas se encontra, podemos ver que eles nem sequer validam internamente seus discursos. Deve ser algo como: "Vai lá, escreve alguma coisa, e torça para ninguém descobrir os truques". De forma totalmente alucinada, Doyle lança uma falsa analogia que mereceria expulsão de sala de qualquer curso básico de lógica, pois o trabalhador que trabalha para a empreiteira pode pedir demissão e trocar de país, o que não ocorre com os médicos cubanos, a não ser no caso dos desertores. Ao final do contrato da empreiteira, é verdade que os profissionais podem retornar ao Brasil, mas podem também voltar apenas para finalizar sua mudança definitiva para o outro país. Isto é, o ganho da empreiteira, assim como o ganho do profissional, não está vinculado a nenhuma coerção, o que mostra a completa diferença entre o exemplo citado por Doyle e a escravidão dos médicos cubanos.


2 – Os governos do Brasil e de um país africano assinam um acordo para que uma empresa estatal brasileira envie profissionais de seu quadro àquele país para dar assistência técnica a pequenos agricultores. O governo brasileiro será remunerado em dólares pelo governo africano. A estatal brasileira designará alguns de seus funcionários para residir e trabalhar temporariamente no país africano. Quem vai definir a remuneração dos servidores da empresa estatal brasileira e lhes fará o pagamento, a estatal brasileira ou o governo do país africano? É óbvio que é a empresa estatal brasileira.

Novamente, falsa analogia. Basicamente, o exemplo é o mesmo do anterior, com a diferença de que a empresa agora é estatal. Mas uma coisa é uma empresa estatal, da qual uma pessoa pode se demitir, e outra completamente diferente é um estado totalitário, que aprisiona seus habitantes.


Por que, então, tem de ser diferente com os médicos cubanos? Eles não estão vindo para o Brasil como pessoas físicas, nem estão desempregados. São servidores públicos do governo de Cuba, trabalham para o Estado e por ele são remunerados. Quando termina a missão no Brasil (ou em qualquer outros dos mais de 60 países em que trabalham), voltam para Cuba e para seus empregos públicos.

Ele chafurda novamente, e nos ajuda a mostrar que a situação dos médicos cubanos é totalmente diferente. Mesmo que eles não venham para o Brasil como pessoas físicas, poderiam ter a chance de não vir, mas isso não é possível pois Cuba é um país plenamente socialista, e, como tal, totalitário. Por isso, seus cidadãos são vistos como gado, ou, no mínimo, escravos.

Ademais, não estamos falando da prestação de serviços de desenvolvimento de software, manutenção de faturas ou qualquer outro serviço terceirizável. Falamos de medicina, uma atividade crítica que só pode ser terceirizada sob condições muito críticas de validação (por exemplo, temos que fazer aquele que vende o serviço prestar contas em termos de qualidade do que vende, seja por via direta, seja por via indireta). Se um médico cubano cometer um erro, vamos processar Cuba? Fica claro que não faz sentido algum para qualquer governo civilizado terceirizar este tipo de atividade de forma leviana como tem feito.

A esquisitice segue campeando solta no texto de Doyle:


Não teria o menor sentido, assim, que esses médicos, formados em Cuba e servidores públicos cubanos, fossem cedidos pelo governo de Cuba para trabalhar no Brasil como se fossem pessoas físicas sendo contratadas. Para isso, eles teriam de deixar seus postos no governo de Cuba. Como não faria sentido que os empregados da empreiteira contratada na Europa ou da estatal contratada na África assinassem contratos e fossem remunerados diretamente pelos governos desses países. Trata-se de uma prestação de serviços por parte de Cuba, feita, como é natural, por profissionais dos quadros de saúde daquele país.

A mente de Doyle realmente não funciona de acordo com os paradigmas democráticos. Note que ele usa a expressão "não faz sentido" duas vezes para coisas que fazem todo sentido para quem entende o que é uma democracia.

Por exemplo, um sujeito que trabalha no Banco do Brasil presta serviço ao estado, mas pode abandonar o serviço e se tornar consultor de vendas na França. E isso faz todo o sentido. Assim como um sujeito que trabalha para uma empreiteira contratada na Europa ou uma estatal contratada na África pode pedir sua demissão e ir trabalhar nesses países. E isso também faz todo o sentido.

Prestar serviços para o estado não é o problema. O problema ocorre quando o profissional não pode quebrar esse vínculo e não tem opções, o que é típico do trabalho escravo.

De novo vou retomar o exemplo dos jogadores de futebol e o vínculo permanente que eles tinham com seus clubes, pois é exatamente em cima do argumento dizendo que as pessoas não devem ter vínculos permanentes com seus contratantes em uma sociedade livre que a antiga lei do passe foi extinta, pondo fim a uma época em que os jogadores de futebol tinham vínculos eternos com seus clubes. Hoje em dia os contratos são limitados a cinco anos, e podem ser rescindidos por multa. Essa evolução no mundo do futebol mostra que sabemos a diferença entre trabalho escravo e trabalho livre. E, novamente, sem esquecermos do atenuante de que os jogadores podiam ainda assim quebrar os vínculos com seus clubes, mas apenas se decidissem abandonar a profissão de jogador. Como agravante na questão cubana, os médicos cubanos não podem abandonar a profissão de médico para quebrar seu vínculo com Cuba.

Ter seus serviços negociados por uma consultoria, empreiteira ou qualquer outro tipo de empresa, mesmo estatal, não configura trabalho escravo, por causa da opção de ir e vir da pessoa contratada.

Tais obviedades, que a mente de Doyle não consegue sequer assimilar, tornam o ato de refutar seu show de aberrações intelectuais uma verdadeira moleza.


A outra crítica é quanto à remuneração dos médicos cubanos. Embora menor do que a que receberão os brasileiros e estrangeiros contratados como pessoas físicas, está dentro dos padrões de Cuba e não discrepa substancialmente do que recebem seus colegas que trabalham no arquipélago. É mais, mas não muito mais. Não tem o menor sentido, na realidade cubana, que um médico de seus serviços de saúde, trabalhando em outro país, receba R$ 10 mil mensais.

É a terceira vez que Doyle usa um "não tem o menor sentido" para algo que faz todo o sentido. Se no Brasil paga-se R$ 10.000 reais por profissionais de medicina no programa Mais Médicos, depreende-se que este valor foi estipulado com base no mercado. Se os médicos cubanos são tão bons quanto seus contratantes alegam, então eles tem "mercado" pelo mundo. Não faz sentido pagar menos para eles, lembrando que tomamos como premissa que em um país democrático já não trabalhamos com a hipótese de trabalho escravo. Eu faço questão de destacar essa premissa, pois se Doyle quer rejeitar a hipótese de que os cubanos são escravos, então sua argumentação terá que ser pressionada pelos critérios do trabalho livre. Mas a mente de Doyle pensa assim: "não faz sentido pagar o mesmo valor para um escravo que eu pago para um trabalhador livre". Sim, isso é verdade, mas se ele quer negar que os cubanos são escravos, todos os parâmetros que devemos usar para avaliar seus exemplos devem tomar por premissa cenários onde temos um trabalho livre. É exatamente nessas comparações com o trabalho livre que Doyle cai em areia movediça.


E, embora os críticos não aceitem, há em Cuba uma clara aceitação, pela população, de que os recursos obtidos pela exportação de bens e serviços (entre os quais o turismo e os serviços de educação e saúde) sejam revertidos a todos, e não a uma minoria.

Com o mesmo fiapo de argumentação de sempre, Doyle mais uma vez reforça o meu argumento. Se realmente a população de Cuba já aceitou que o valor de seu trabalho seja "revertido a todos", então o governo brasileiro não precisaria pagar nada a Cuba, mas diretamente aos médicos cubanos. Daí, se for verdade o que Doyle afirma, eles poderiam fazer doações ao governo cubano. Mas é claro que Doyle e o PT não vão querer isso, certo? É por isso que muitas vezes fica até difícil explicar o quão baixo os petistas são capazes de descer.


O que Cuba ganha com suas exportações de bens e serviços, depois de pagar aos trabalhadores envolvidos, não vai para pessoas físicas, vai para o Estado.

Aleluia! Provamos a paranormalidade. O governo cubano é o único estado não administrado por pessoas físicas. Provavelmente seus administradores devem ser entidades etéreas ou espíritos. É um fato: a capacidade de um petista escrever besteiras parece não tem fim.


A possibilidade de ganhar bem mais é que faz com que alguns médicos cubanos prefiram deixar Cuba e trabalhar em outros países como pessoas físicas. É normal que isso aconteça, em Cuba ou em qualquer país (não estamos recebendo portugueses e espanhóis?) e em qualquer atividade (quantos latino-americanos buscam emigrar para países mais desenvolvidos?). Como é normal que muitos dos médicos cubanos aprovem o sistema socialista em que vivem e se disponham a cumprir as "missões internacionalistas" em qualquer parte do mundo, independentemente de qual é o salário. Para eles, a medicina se caracteriza pelo humanismo e pela solidariedade, e não pelo lucro.

Como advogado de defesa do governo cubano, Doyle simplesmente não serve mais. Ele não consegue fazer um único parágrafo sem falácias. Tudo fica fácil demais para quem quiser refutá-lo. Ele deve ser preguiçoso ou relaxado na hora de elaborar seus "casos" de defesa. De novo, se aceitarmos que ele acredita no que fala, então basta pagar R$ 10.000 a cada médico cubano e mandar o governo cubano sorver pirongas. Se Doyle fala a verdade, então os médicos que querem deixar Cuba, deixarão, e os médicos que "não ligam para salário" podem doar quase tudo para os irmãos Castro e voltarem para lá quando quiserem. Não é óbvio? Não há um traço da argumentação de Doyle que justifique a contratação de mão de obra escrava. É um discurso mais desavergonhado que o outro.


É difícil entender isso pelos que aceitam passivamente, aprovam ou se beneficiam da privatização e da mercantilização da medicina e da assistência à saúde no Brasil.

Não, é difícil para um coletivista exacerbado como Doyle entender que não precisamos de trabalho escravo para atender a demanda de médicos no Brasil. Podemos pagar R$ 10.000 por mês para cada médico de Cuba, China, França, Zaire, Taiwan, Tanzânia, Cazaquistão, Estados Unidos e o que valha. Se alguém passou pelo Revalida, tem chances de disputar o mercado aqui e neste caso será bem-vindo.

A quantidade de absurdos lançada pelo petista seria comovedora não fosse tão amoral. Que ele tente enganar outro! De preferência alguém que não conheça suas falácias preferidas: o falso dilema e a falsa analogia.

E, conforme eu tinha prometido, este capítulo mostrou que, para negar o fato de que o governo brasileiro importou mão de obra escrava em pleno século 21, os petralhas apelaram para a falsidade em forma de discurso, com rotinas patentemente insanas, demonstrando total desapego pela lógica mais básica. O apontamento destas fraudes seria uma diversão, caso não tratássemos de uma situação trágica vivida pelos médicos cubanos, impedidos de viver como cidadãos livres.
Notas

[1] Matéria: "Brasil vai receber 4.000 médicos cubanos ainda em 2013". Folha de São Paulo, 21 de agosto de 2013.


[3] Matéria: "Dilma pede desculpas a médico cubano hostilizado em Fortaleza". Folha de São Paulo, 22 de outubro de 2013.

[4] Aliás, no decorrer deste ensaio você verá que Alexandre Padilha praticamente se viciou no uso da expressão "corredor polonês" para designar o ato de manifestação de seus opositores.

[5] Matéria: "Médicos estrangeiros são hostilizados durante protesto em Fortaleza". O Povo, 27 de agosto de 2013. Link:

[6] Matéria: "Médicos estrangeiros fazem o Revalida neste domingo". Veja, 25 de agosto de 2013. Observação: o detalhe é que esta revalidação de diploma valeu apenas para os médicos que vinham dos demais países estrangeiros, mas não se aplicou aos médicos cubanos.

[7] Petralha é um rótulo criado por Reinaldo Azevedo, para designar indivíduos com falhas de caráter tão graves que não se furtará a apoiar todo e qualquer ato abjeto cometido por petistas. Uma forma de entendermos o que é um petralha e o que o qualifica para este rótulo pode vir a partir de um contraexemplo deste comportamento. Comecemos por este contraexemplo citando o caso do senador Demóstenes Torres, banido do DEM após ter sido denunciado por ligação com o contraventor Cachoeira. Embora eu tenha visto um ou outro direitista apoiando-o no início das denúncias, quando elas se tornaram um fato incontestável, a grande maioria dos conservadores mostrou profunda decepção com Demóstenes. Não raro se viam expressões como "que pena, lá se foi um conservador, este não nos representa mais". Entretanto, quando o mesmo ocorre com um político do PT, a maioria dos adeptos do partido tenta esconder os fatos, como no exemplo do Mensalão e a turma de José Dirceu. Este tipo de gente configura, então, um petralha, alguém disposto até a apoiar crimes em nome da defesa ao seu partido do coração.

[8] Artigo: "Juan Delgado: Brasileiros deviam ir aos lugares mais pobres". Blog Viomundo, 28 de agosto de 2013. No decorrer deste ensaio, o discurso de Delgado será devidamente refutado, assim como todas as falácias cometidas pelo blogueiro.

[9] Artigo: "O médico cubano negro e a intolerância de nossa elite branca". Blog do Rovai, 27 de agosto de 2013.

[10] Artigo: "O Fascismo do PT contra os médicos", de Luiz Felipe Pondé. Folha de São Paulo, 2 de setembro de 2013.

[11] Artigo "Pondé deu o argumento final a favor do Mais Médicos". Diário do Centro do Mundo, 04 de setembro de 2013.

[12] Verbete: "Reductio Ad Hitlerum", da Wikipedia.

[13] Livro: "Apoiando Hitler", de Robert Gellatelly, Editora Record. O livro de Gellatelly, lançado originalmente em 2001 (título original: "Backing Hitler") é especialmente importante para compreendermos os meandros de como o governo hitlerista utilizou a propaganda para tornar o restante da população insensível ao que passaria a ocorrer com os judeus. Este é o efeito desejado das campanhas de demonização e desumanização.

[78] Matéria: "Ministro acha justo que Cuba fique com parte do salário de médicos". Folha de São Paulo, 28 de agosto de 2013.

[79] Matéria: "Médicos cubanos chegam hoje a Brasília e ao Recife, diz Padilha". Agência Brasil, 24 de agosto de 2013.

[80] Matéria: "Quem é mesmo a escrava?". Brasil247, 25 de agosto de 2013.

[81] Link: Vanguarda Popular.

[82] Artigo: "Médicos cubanos: pode criticar, mas não é trabalho escravo". Blog do Sakamoto, 23 de agosto de 2013.

[83] Matéria: "Acordo para trazer cubanos renderá 24,3 milhões a OPAS". Globo, 27 de agosto de 2013.

[84] Artigo: "Trabalho análogo à escravidão – Trabalho Degradante". Publicado no site do Sinpait (Sindicato Paulista dos Auditores Fiscais do Trabalho).

[85] Matéria: "CFM diz que governo retém passaportes". Políbio Braga, 2 de outubro de 2013.

[86] Artigo: "Entenda por que médicos cubanos não são escravos". Brasil247, 25 de agosto de 2013.

[87] Artigo: "Hélio Doyle: e a velha antiga luta continua...". Viomundo, 28 de junho de 2012.















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'A Lógica da Criação'


Jesus, oculto na Hóstia, é tudo para mim




“Se não fosse a Santa Comunhão, eu estaria caindo continuamente. A única coisa que me sustenta é a Santa Comunhão. Dela tiro forças, nela está o meu vigor. Tenho medo da vida, nos dias em que não recebo a Santa Comunhão. Tenho medo de mim mesma. Jesus, oculto na Hóstia, é tudo para mim. Do Sacrário tiro força, vigor, coragem e luz. Aí busco alívio nos momentos de aflição. Eu não saberia dar glória a Deus, se não tivesse a Eucaristia no meu coração.”



(Diário de Santa Faustina, n. 1037)

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