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quinta-feira, 15 de maio de 2014

Confraria de São João Batista Mosteiro Beneditino.




Confraria de São João Batista




Mosteiro Beneditino.


Posted: 15 May 2014 01:00 AM PDT


O QUE É UM MOSTEIRO BENEDITINO?




Dom Emmanuel-Marie André

( † 1903)




Fonte: www.beneditinos.org.br




As poucas páginas que seguem foram publicadas pela primeira vez no Boletim da Obra de Nossa Senhora da Santa Esperança. Tínhamos anunciado a fundação dos Beneditinos e das Beneditinas de Nossa Senhora da Santa Esperança, e as Máximas de São Bento vinham, por assim dizer, responder à pergunta: O que é então um mosteiro beneditino?




Desejamos que estas páginas levem a resposta a toda parte em que puder esclarecer um espírito, alegrar uma alma, ajudar talvez uma vocação. Quantas almas sofrem no mundo por não terem encontrado o seu caminho e que renderiam graças a Deus pela sua felicidade se uma mão caridosa lhes mostrasse a porta de um mosteiro beneditino!




CAPÍTULO 1 - São Bento e sua obra na igreja

CAPÍTULO 2 - O segredo do poder de São Bento

CAPÍTULO 3 - A presença de Deus

CAPÍTULO 4 - O amor de Nosso Senhor Jesus Cristo

CAPÍTULO 5 - A graça de Deus

CAPÍTULO 6 - O Mosteiro

CAPÍTULO 7 - O Abade

CAPÍTULO 8 - Os Irmãos

CAPÍTULO 9 - As três colunas do edifício

CAPÍTULO 10 - A Oração

CAPÍTULO 11 - O Ofício Divino

CAPÍTULO 12 - A liberdade de espírito

CAPÍTULO 13 - Um testemunho

CAPÍTULO 14 - A luz em todas as coisas

CAPÍTULO 15 - A Glória de Deus em todas as coisas




CAPÍTULO I




AS MÁXIMAS DE SÃO BENTO




São Bento e a sua obra na Igreja




Aprouve muitas vezes a Deus, que falou a Moisés no monte Sinai, falar a seus santos no cume das montanhas, longe do mundo, perto do céu. Monte Cassino é um desses lugares abençoados; lá se ergue, como sobre uma base de granito, a grande imagem de São Bento. A mão de Deus que o tinha arrebatado do mundo, conduziu-o à solidão, e o moldou para ser o pai da maior família monástica que já houve na Igreja.




Ele começou, diz Bossuet, por onde os outros acabam, ou seja, pela perfeição. Sua primeira vitória sobre o mundo foi completa, decisiva: a vitória que ele alcançou pouco depois sobre si mesmo, triunfando sobre os atrativos da voluptuosidade, não foi menos completa nem menos decisiva. Em seguida correu com um passo livre e seguro no caminho de Deus, e, como nota o mais ilustre dos seus discípulos, São Gregório Magno, tendo-se tornado eleito de Deus, tornou-se doutor das almas. Electi, doctores animarum fiunt.




Era admirável ver São Bento, tão jovem ainda, cercado de discípulos, ensinando-lhes o caminho da perfeição monástica. A humildade do pai foi a medida da multiplicação dos filhos: "De modo que para fazer o seu panegírico em poucas palavras e resumir seus louvores, seria preciso apenas destacar que Deus o julgou bastante digno de ser a cabeça desse grande corpo, dessa ordem tão célebre, tão santa, tão ilustre, tão útil e tão gloriosa para a Igreja; seria preciso apenas dizer que ele teve em grau eminente todas as virtudes, as perfeições, os méritos, as coroas, as auréolas dessa multidão inumerável de santos patriarcas, profetas, homens apostólicos, mártires, pontífices, confessores e virgens que pertenceram à sua ordem e nela permanecerão até a consumação dos séculos, aos quais ele comunicou e comunica continuamente tanto a santidade que eles tiveram na terra como a glória e felicidade que possuem no céu... Quanta glória deram a Deus, quantos sacrifícios Lhe ofereceram, quantas almas Lhe ganharam, quantos infiéis converteram, quantos fiéis santificaram, quantos povos instruíram, quantas paróquias governaram, quantos sacramentos administraram, quantos ofícios divinos cantaram, quantos serviços prestaram à Igreja, quantas orações vocais, quantas orações mentais, quantos jejuns, quantas vigílias, quantas esmolas, quantas penitências, quantas obras de caridade fizeram, quantos atos de virtude praticaram. Depois de Deus, é São Bento o autor de todas essas coisas, ele as desejou ardentemente, pediu-as nas suas orações, obteve-as pelas suas preces, mereceu-as pelas suas boas obras e previu-as por seu espírito profético: portanto tem delas a alegria, a recompensa e a glória acidental, como frutos de seus trabalhos, colheitas de suas sementes, efeitos de suas influências".




Mostrar São Bento em todas as suas grandezas seria uma tarefa muito além de nossas forças: entretanto, querendo prestar-lhe ao menos uma pequena homenagem, nós nos determinamos a publicar algumas de suas máximas.




Os antigos concílios testemunham que São Bento foi assistido pelo mesmo espírito de Deus que ditou os cânones dos concílios. São Gregório Magno, esse experimentado apreciador do mérito, diz que ele foi repleto do espírito de todos os justos: que era uma lâmpada colocada sobre o candelabro para iluminar toda a casa de Deus.




Será bom para nós desfrutar dessa luz e entrar assim no íntimo do pensamento dum santo que penetrou tanto mais profundamente no pensamento de Deus quanto mais humilde era diante de seu Criador. Pois, se é verdade, como ensina São Gregório, que o orgulho é sempre estranho à verdade, não seria menos verdade dizer que a humildade está sempre na posse e no gozo da verdade de Deus.




Ora, São Bento foi humilde: ele o era para com Deus e para com todos. Seus próprios inimigos, os que tentaram envenená-lo, não puderam alterar a sua paz, a sua doçura, a sua invencível humildade. Sempre ele se via sob o olhar de Deus, segundo o testemunho de seu santo biógrafo e, por conseguinte, lia sem cessar no livro da verdade eterna, aprendendo desse modo a desprezar-se a si mesmo e a só fazer caso de Deus.




Foi assim que São Bento atraiu para sua alma essas ondas maravilhosas de luz divina que lhe revelava o fundo dos corações, os pensamentos mais secretos, os acontecimentos que ocorriam longe dele, e mesmo aqueles que não deviam suceder senão após longos anos.




Deus derramava em abundância a sua luz nessa alma vazia de si mesma e faminta só de Deus. Enriquecido com os tesouros da sabedoria do alto, São Bento escreveu a santa Regra. É o nome que ele mesmo lhe dá e que a tradição conservou e consagrou. É nela que São Bento descreveu a si mesmo, pois só ensinou o que fez.




É nela também que estudaremos o seu espírito. Para abarcá-lo na sua plenitude, seria preciso contar, pesar, penetrar todas as palavras da santa Regra; não seríamos capazes de um trabalho tão amplo: vamos nos limitar a colher num campo tão vasto e variado algumas flores cuja cor, odor e perfume possam ser úteis a nossos leitores. Queira Deus que essas flores, ao passarem por nossas mãos, nada percam de sua frescura nativa, de sua graça original, de sua virtude sobrenatural.




CAPÍTULO II




O segredo do poder de São Bento




O que nos surpreende, o que nos maravilha em São Bento, é o poder, a fecundidade, que catorze séculos absolutamente não esgotaram. Se, à vista desses dons tão espantosos, se pergunta qual foi o segredo dum semelhante poder, duma tal fecundidade, encontra-se uma resposta nestas três palavras: a castidade, a humildade, as lágrimas.




São Gregório é admirável, quando, no segundo livro dos seus Diálogos, nos descobre o poder incomparável da castidade de São Bento. "Um dia, o santo teve uma tentação da carne tão violenta como nunca havia experimentado uma semelhante... Quase vencido, ele duvidava se não iria deixar o seu deserto, mas uma graça do alto fez subitamente que voltasse a si mesmo. Notando um lugar cheio de urtigas e de espinhos, despojou-se de suas vestes e lançou-se nu sobre as pontas dos espinhos, nesse braseiro de urtigas; aí se revolveu muito tempo e saiu com o corpo coberto de feridas. Estas tinham curado a chaga de sua alma; por seus esforços, a volúpia tinha-se mudado em dor. Por meio desse castigo do fogo, ele extinguiu o fogo impuro; tinha vencido o pecado. Desde esse momento, como ele próprio contava a seus discípulos, a tentação foi subjugada de tal maneira que nunca mais sentiu o assalto da volúpia. Então começaram muitos a deixar o mundo e apressaram-se em colocar-se sob sua conduta. Isento da tentação, livre do pecado, ele se tornou mestre das virtudes: era justo".




Então, diz São Gregório, para fazer-nos compreender bem o segredo desse poder de atração que admiramos em São Bento: ele tinha vencido a carne, era poderoso no espírito. O Espírito Santo fez escrever estas divinas palavras: "Oh, como é bela a geração dos castos!". Sim, como é bela a geração de homens castos que, tendo começado em São Bento, durou mais de catorze séculos e, segundo uma promessa divina, durará até o fim dos tempos!




À castidade, São Bento acrescentou a humildade, sua companheira inseparável. Conforme o testemunho de seu santo biógrafo, ele preferia antes sofrer as injúrias do mundo do que receber seus louvores: Plus appetens mala mundi perpeti quam laudes. Nessa tão curta frase, São Gregório nos faz perceber, duma só vez, quão sublime era a humildade de São Bento. Sendo quem era, ele não podia deixar de sofrer da parte do mundo. Ora, não podia sofrer da parte do mundo senão duas coisas: ou males ou louvores; ele teve uns e outros. Para ele a coisa mais insuportável não era o que chamamos males, mas o que se lhe atribuía pelos louvores. Iluminado do alto, percebia o mal oculto debaixo desses louvores do mundo, fruto da vaidade naqueles que os dão e armadilha de vaidade para quem os recebe. O louvor enfraquece a alma, torna a oração difícil, a tentação inevitável. Já que se tem que sofrer alguma coisa da parte do mundo, São Bento preferia sofrer os males do que receber os louvores. Sofrer assim não envaidece absolutamente; sofrer assim nos impele para Deus, o soberano, o único bem. Nessa pura luz da humildade, que é a pura verdade, São Bento estava à vontade sob o olhar de Deus e dEle recebia inestimáveis favores, tanto para si mesmo, como para as almas que gravitavam em torno da sua. "O humilde é amado e consolado por Deus. Deus Se abaixa em direção a ele; dá-lhe a Sua graça e o faz em plenitude e grandeza. Revela-lhe os Seus segredos, convida-o e o atrai docemente a Si. O humilde permanece em Deus e não no mundo: Stat in Deo, non in mundo".




Elevado em Deus pelas duas asas da castidade e da humildade, São Bento se tornara um instrumento muito apropriado para as obras de Deus. Ele era, como diz São Paulo, um vaso de honra, um instrumento santificado e útil ao Senhor, disposto para toda a boa obra. Casto, ele podia dirigir as almas: humilde, penetrava os mistérios da vontade de Deus, e se prestava tanto melhor para o seu cumprimento, quanto era mais fiel em reservar somente a Deus a glória de todas as coisas. Non nobis, Domine, non nobis!




Não seria de crer que, sendo amigo de Deus, São Bento visse o bem se realizar sob suas mãos, sem ter que beber o cálice do sofrimento. Antes pelo contrário, quanto mais crescia a obra de Deus, tanto mais o incomparável santo tinha lágrimas para derramar. É a lei da providência de Deus. Desde o pecado original, triste fruto do prazer de um instante, o bem não se faz mais neste mundo senão como fruto da dor. Esta verdade não brilha em nenhuma parte com um fulgor mais impressionante do que em Nosso Senhor Jesus Cristo. O grão de trigo, diz o Salvador, não dará fruto nenhum se não morrer, se não for colocado na terra e fecundado pelas chuvas. São Bento também semeou com lágrimas. O sangue de Nosso Senhor caiu sobre a terra, e ele só tem toda a sua fecundidade onde lágrimas que só Deus conhece são derramadas abundantemente. Ele quis, não obstante, que nós conhecêssemos, ao menos em parte, as de São Bento, que chorava freqüentemente. Um padre se havia feito inimigo do santo: Deus o esmagou debaixo das ruínas de sua casa. Anunciou-se o fato a São Bento, não sem certa satisfação. O santo deplorou essa satisfação com tantas lágrimas, quantas derramou pela morte desse desventurado.




Um piedoso senhor, que São Bento honrava com sua amizade, entrou um dia na sua cela e o encontrou chorando com soluços. A vista dum tal amigo não estancou de modo nenhum as lágrimas do santo: Deus lhe havia revelado a futura destruição de seu mosteiro pelos lombardos; à força de lágrimas e de gemidos, obtivera de Deus a vida dos religiosos. Os lombardos, com efeito, saquearam tudo, mas não puderam atentar contra a vida deles.




As orações ordinárias do santo eram acompanhadas de lágrimas; mas, doces como a graça que as fazia brotar, com o amor que as derramava, elas corriam sem barulho. Que espetáculo mais grandioso, mais comovente, mais encantador do que o incomparável santo, tão casto, tão humilde, chorando, sem fazer ruído, diante de Deus!




CAPÍTULO III




A Presença de Deus




Está escrito no livro da Imitação de Cristo: "O humilde se mantém em Deus", Stat in Deo... São Bento poderia dizer como os primeiros solitários do Carmelo: Viva o Senhor, em cuja presença me mantenho. Sendo a presença de Deus tão familiar e tão cara a este incomparável pai, ele a ensinava também a seus filhos e não cessava de inculcá-la. Reconhecendo-se, como São Paulo, devedor aos fortes e aos fracos, ele tinha meios proporcionados a cada um para levá-los todos a viver na presença de Deus.




Aos mais fracos, São Bento dava este preceito: Saibam que em todo o lugar Deus os olha. E noutro lugar: Cada um considere que Deus o contempla do alto do céu, e que em todo lugar suas ações são vistas pelos olhos de Deus e a toda hora são referidas a Deus pelos anjos.




Assim é útil representar-se Deus como nosso soberano senhor, como um grande rei, dominando nos céus, servido pelos anjos, e não se dedignando absolutamente abaixar os seus olhares sobre nós, pobres vermezinhos. Ele faz mais, pois se interessa por tudo o que se refere a nós, por tudo o que fazemos; ele envolve nisto os Seus anjos e os delega para junto de nós a fim de nos guardar e, se for preciso, nos denunciar a Ele.




Este meio de praticar a presença de Deus funda-se, como se vê, na imaginação, dirigida entretanto pela fé. E quando a fé é assim a diretriz da imaginação, esta pode prestar-nos grandes serviços.




Mas o discípulo de São Bento deve esforçar-se por se elevar acima das imagens e da imaginação, deve aspirar a viver da fé; pois, diz São Paulo, o justo vive da Fé: Justus meus ex fide vivit. Se, pois, o discípulo de São Bento começa por atos da imaginação ajudados pela fé, ele progredirá por meio dos atos de fé auxiliados um pouco pela imaginação, e será perfeito quando, elevado acima dos sentidos, viver puramente da fé, como o justo de São Paulo. Justus meus, o meu justo, diz o apóstolo.




Então São Bento ensinar-lhe-á uma nova maneira de entender a presença de Deus. Escutemos este mestre pouco conhecido: Temendo a Deus, diz ele dos verdadeiros servidores de Deus, temendo a Deus, eles não se tornam orgulhosos por causa de sua boa observância, mas reconhecendo que tudo o que tem de bom não procede absolutamente deles mesmos, mas vem de Deus, glorificam o Senhor que neles opera, dizendo com o profeta: Non nobis, domine, non nobis....




Estes felizes discípulos de São Bento não mais consideram Deus como acima deles no céu; nem como em torno deles, à maneira do ar que nos envolve; mas eles O vêem, pela fé, presente neles mesmos pela infinitude de Seu ser, dando-lhes o ser, a vida, o movimento e, por conseguinte, todo o bem que fazem. Reconhecem que Deus é o seu primeiro autor, o seu único inspirador; e então Lhe tributam glória por tudo, cantando com amor e humildade o versículo do salmo: Non nobis, Domine, non nobis!




Este "non nobis" é a tradução dos sentimentos dos homens que renunciaram totalmente a si mesmos para seguir a Jesus Cristo.




CAPÍTULO IV




O Amor de Nosso Senhor Jesus Cristo




Jesus Cristo! São Bento quer que Ele seja amado. Mas com que arte sabe ensinar o amor do divino Salvador! Desde as primeiras palavras da santa Regra, ele ensina a renunciar às suas próprias vontades; pois o homem se ama a si mesmo demasiado naturalmente, e este amor se revela pela afeição à vontade própria. Esta afeição deve diminuir para que o amor de Jesus Cristo tenha mais facilidade de entrar na alma: depois, por um esforço generoso, renuncie o discípulo às suas vontades para abraçar a vontade de Deus, ou melhor como diz São Bento, para lutar pelo verdadeiro Rei que é Nosso Senhor, então ele fará o ato de amor e o fará na verdade.




Secundando o seu nobre ardor, São Bento lhe ensinará a preferir Jesus Cristo a tudo, a considerar Jesus Cristo como o seu mais caro tesouro. Nihil Christo carius.




Sendo a caridade o fim, o coroamento de toda a virtude, São Bento, ao ensinar a humildade, dá-lhe igualmente por termo a caridade. Ele conduz o seu discípulo por doze diferentes graus de humildade e, depois, diz, "chega-se a este amor de Deus que é perfeito. Ele expulsa o temor e o que anteriormente não se observava sem custo, vem-se a observar com alegria por amor de Jesus Cristo, Amore Christi".




Assim, em duas palavrinhas muito curtas, se encontra resumida a doutrina de São Bento sobre o ponto capital da moral cristã. Nihil Christo carius: Nenhum outro tesouro senão Jesus Cristo; eis o que ilumina a inteligência, o que forma o espírito, o que prepara os caminhos da salvação. Depois Amore Christi, agir por amor e para o amor de Jesus Cristo; eis o que leva o coração a Deus e torna a vida presente merecedora da eterna. Vamos lá!




CAPÍTULO V




A Graça de Deus




Do amor de Nosso Senhor à graça de Deus, não há mais que um passo e este não é grande.




Em algumas palavras duma limpidez perfeita, São Bento nos entregou o seu pensamento sobre a graça de Deus. No prólogo da santa Regra, ele fala daqueles que, "temendo a Deus, não se exaltam absolutamente por causa de sua boa observância e, reconhecendo que o que eles têm de bom, não lhes é possível absolutamente por si mesmos, mas que é obra do Senhor, glorificam o Senhor que neles opera".




Mais adiante, o santo patriarca exprime a mesma idéia com um desenvolvimento importante; ele dá a seu discípulo este conselho: "Quando vir em si mesmo algum bem, que o atribua a Deus e não a si; saiba contudo que o mal é sempre obra sua e a si o impute".




Aí está perfeitamente a doutrina que São Cipriano exprimia outrora com estas palavras bem conhecidas: "Nós não nos podemos gloriar de nada, visto que nada é nosso: In nullo gloriandum, quando nostrum nihil est".




Mas onde o pensamento de São Bento se revela na sua totalidade, é quando trata do que deve fazer o abade após ter empregado todos os meios de correção para com um religioso que permanece incorrigível. "Se ele vê, diz, que com toda a sua diligência, nada obteve, que empregue no caso, o que é maior: a sua prece e a de todos os irmãos, a fim de que o Senhor, que tudo pode, opere a salvação deste irmão enfermo".




Aqui São Bento tinha em vista esta graça que o coração mais duro não rejeita, uma vez que ela é dada para tirar a dureza do coração. São os mesmos termos de Santo Agostinho, e São Bento é da escola dele.




Um monge beneditino, escrevendo um dia a Bossuet, lhe dizia: "Todos nós Beneditinos fomos sempre extremamente apegados aos sentimentos de Santo Agostinho".




Todos!




Sempre!




Extremamente!




Este monge beneditino se chamava Dom Mabillon.




CAPÍTULO VI




O Mosteiro




O mosteiro recebeu de São Bento um nome maravilhosamente belo: é a casa de Deus, Domus Dei; nossos pais amavam este nome e, de bom grado, diziam: a casa de Deus, como hoje ainda se diz Hôtel-Dieu.




A casa de Deus está inteiramente submetida ao governo de Deus; Ele a rege pela Sua lei, pelos Seus mandamentos, por Seus conselhos, por Sua graça, por Seu amor. A casa de Deus combate pelo seu rei, e este é Nosso Senhor Jesus Cristo.




A casa de Deus é a morada da paz; imagem do céu, o mosteiro tende a libertar-se cada vez mais de tudo o que é terrestre; seus habitantes, êmulos dos santos anjos, devem viver numa tranqüilidade tal que eles estejam ao abrigo de toda a perturbação e de toda a tristeza. Gosta-se de ouvir São Bento dizer estas encantadoras palavras: Que ninguém seja perturbado ou entristecido na casa de Deus. Nemo perturbetur neque contristetur in domo Dei.




Não se diria que o santo revelou nesta breve máxima toda a doçura da sua alma, toda a ternura do seu coração paternal?




A casa de Deus é também uma escola. Desde as primeiras páginas da Regra, São Bento chama o seu mosteiro de escola do serviço do Senhor. O monge está na escola e sempre deve aprender; a ciência por excelência à qual ele se deve aplicar é o serviço do Senhor.




CAPÍTULO VII




O Abade




Sendo o mosteiro a casa de Deus, o abade deve ser considerado como lugar-tenente de Jesus Cristo. São Bento di-lo expressamente: Christi agere vices in monasterio creditur.




Segue-se daí que seu governo deve ser uma imitação do governo de Deus. Escreveu-se outrora um livro sobre esta questão: Qual é o melhor governo, o rigoroso ou o brando? O melhor governo, segundo nós, é aquele que imita mais perfeitamente o de Deus, o qual governa com a autoridade que sabe empregar o melhor possível a doçura, quando esta se requer e o rigor, quando este é exigido. Tal é a autoridade de Deus, tal deve ser o chefe do mosteiro conforme São Bento.




São Bento adverte ter o Abade um encargo difícil, o de governar almas e de adaptar-se aos caracteres de muitos. Difficilem et arduam rem regere animas et multorum servire moribus. Servire! Aí está um dos deveres do abade.




Seu cargo lhe é dado a fim de ajudar os fracos, não para tiranizar os bons: Noverit se infirmarum curam suscepisse animarum, non super sanas tyrannidem.




Deve aplicar-se a ser útil a seus irmãos e não a fazer-se prevalecer: Prodesse magis quam praeesse. Toda a antigüidade repetiu com tanta admiração como complacência esta bela máxima de São Bento.




Como cada um encontra em si o poder de amar e o de odiar, o Abade deve saber regular em si mesmo estas afeições de sua alma. Deve odiar todos os vícios e amar todos os seus irmãos. Oderit vitia, diligat fratres.




Deus quer ser temido, porém mais ainda quer ser amado: fiel imitador do governo de Deus, o Abade aplicar-se-á, também ele próprio, mais a ser amado do que temido. Studeat plus amari quam timeri.




Depois, como o Abade não passa de um lugar-tenente de Nosso Senhor, ele deverá pensar nas contas muito exatas que Lhe dará de sua alma e de todas as que serão a si confiadas. São Bento não se cansa de repetir esta advertência ao Abade; e a propósito de todos os seus deveres, tanto no temporal como no espiritual, a propósito de todas as suas decisões, ele traz à memória do Abade o julgamento de Deus.




Enfim, exige dele uma virtude indispensável: a discrição. O Abade deve temperar todas as coisas de tal maneira que os fortes desejem fazer mais e que os fracos não venham a desanimar: Sic omnia temperet, ut sit quod fortes cupiant et quod infirmi non refugiant.




CAPÍTULO VIII




Os Irmãos




São Bento, para reconhecer a vocação de seus noviços, tinha quatro sinais que nos ensinou e que se podem dizer infalíveis. Examinava, portanto, se o noviço procurava a Deus com toda a pureza, o que já não é tão comum: em segundo lugar se ele tinha zelo pelo ofício divino; a seguir se era pronto na obediência; por fim se suportava bem uma reprimenda, um opróbrio. Si vere Deum quaerit, si sollicitus est ad opus Dei, ad obedientiam, ad opprobria. Estas curtas palavrinhas valem ao menos todo um livro que se intitularia: Do discernimento dos espíritos.




Comprometido pela profissão religiosa, o discípulo de São Bento não pertence mais a si mesmo; cabe à obediência conduzi-lo em todas as coisas. Seu julgamento está submetido a um julgamento superior, sua vontade a uma vontade mais segura; e com isso um monge deve andar na alegria de ver acima de si o superior que Deus encarregou do cuidado de sua alma: Ambulantes alieno judicio et imperio, Abbatem sibi praeesse desiderant.




Uma das coisas que São Bento proíbe com mais insistência é a murmuração. Em todas as ocasiões e por várias vezes, ele volta sobre isso e exclama para todos: Nada de murmurações! A casa de Deus tornar-se-ia a imagem do inferno, se a murmuração ali penetrasse. Há pelo menos sete passagens da Regra nas quais as murmurações são proibidas.




Os irmãos devem amar-se uns aos outros até se obedecerem de boa vontade: o amor que devem a seu pai, a seu Abade, tem duas qualidades essenciais: deve ser ao mesmo tempo humilde e sincero: humilde , porque o Abade é a imagem viva de Nosso Senhor; sincero, porque o monge deve ser, em todas as coisas, o homem da verdade: Veritatem ex corde et ore proferre.




É assim que, com algumas prescrições muito breves, mas muito substanciais, São Bento regula ao mesmo tempo o homem interior e todo o regime da casa de Deus. Beati qui habitant in domo tua, Domine!




CAPÍTULO IX




As três colunas do edifício




Querendo edificar a casa de Deus, São Bento lhe dá por base três possantes colunas, as quais descreve desde os primeiros capítulos da santa Regra: a obediência, o silêncio e a humildade.




"A obediência nos separa do mundo e de toda as suas maneiras de agir; ela nos separa ao mesmo tempo de nós mesmos, uma vez que nos subtrai os corpos e as vontades, a fim de submetê-los à sua lei.




O silêncio nos retira as palavras, fecha-nos a boca e, aqui e ali, preserva-nos duma infinidade de males.




Enfim, a humildade tira-nos a vaidade; purificando assim o coração e as intenções; ela acaba a obra de nossa conformidade com a vontade de Deus e nos fixa no caminho de toda a perfeição.




Às almas assim despojadas, só resta Deus".




A Primeira Coluna




Desde as primeiras palavras da Regra, São Bento, considerando que a desobediência foi o começo da perda do gênero humano, quer que retornemos a Deus pelo trabalho da obediência. O soldado de Cristo, como ele chama ao seu discípulo, deve primeiramente despojar-se de suas próprias vontades depois revestir-se com as armas da obediência. Elas são poderosas, são belas. Obedientiae fortissima atque praeclara arma.




"Os mundanos, dizia Bossuet, correm para a escravidão por meio da liberdade; vós, ao contrário, meus Padres, vós ides para a liberdade por meio da dependência. Que é a liberdade dos filhos de Deus, senão uma dilatação e uma distensão do coração que se desembaraça de todo o finito? Por conseguinte, cortai, suprimi. Nossa vontade é finita e, na medida em que se fecha em si mesma, ela se limita. Quereis ser livres, desembaraçai-vos; não tenhais mais vontade a não ser a de Deus; assim entrareis no poder do Senhor; e, esquecendo-vos da vossa vontade própria, não vos lembrareis senão da Sua justiça".




"A obediência, diz ainda Bossuet, é o guia dos costumes, a proteção da humildade, o apoio da perseverança, a vida do espírito e a morte garantida do amor próprio".




São Bento quer que o seu discípulo obedeça em todas as coisas. "Tudo o que se faz sem permissão do Padre espiritual será atribuído à presunção e à vanglória e não à recompensa. Quod sine permissione Patris spiritualis fit praesumptioni deputabitur et vanae gloriae, non mercedi".




A obediência deve ser tão preciosa e tão cara ao discípulo de São Bento que ele, desejoso de praticá-la sem cessar, obedece não apenas ao seu superior, mas a todos os seus irmãos. Obedientiae bonum non solum Abbati exhibendum est, sed etiam sibi invicem. Os irmãos devem obedecer-se assim à porfia. Obedientiam sibi certatim impendant.




Todas estas recomendações ainda não bastam a São Bento. Ele quer que a obediência tenha qualidades tais que seja agradável a Deus e suave ao que obedece como ao que manda. Acceptabilis Deo et dulcis hominibus.




Ela será tal se for praticada sem medo, sem demora, sem moleza, sem murmuração, sem réplica, mas de boa vontade. Non trepide, non tarde, non tepide, aut cum murmure, vel cum responso nolentis... et cum bono animo. Pois, acrescenta São Bento, segundo o Apóstolo: Quem dá com bom coração é amado por Deus.




Após todas estas recomendações, estaria São Bento satisfeito? Não. Resta-lhe ainda dizer até onde se deve estender a obediência. Ora, conforme o santo, ela se estende até o impossível. Eis as próprias palavras de São Bento: "Se se mandam a um irmão coisas duras e impossíveis, que receba a ordem do superior com toda a doçura e obediência. Se ele vê que o fardo excede completamente as suas forças, exponha ao superior com paciência e no momento oportuno as razões de sua impossibilidade, mas isto sem mostras de soberba, resistência ou contradição. Se, depois de ter assim apresentado suas razões, o superior mantiver a ordem dada, saiba o súdito que é para seu bem, e, por amor, confiado na ajuda de Deus, obedeça. Ex charitate, confidens de adjutorio Dei, obediat".




A história monástica está repleta de exemplos desta obediência perfeita que, multiplicando as forças do monge, o faz operar realmente o impossível. Escutemos ainda uma vez a voz de Bossuet: "Vós tendes, meus Padres, um exemplo doméstico da virtude da obediência. Tendo o jovem Plácido caído num lago, quando daí tirava água, estava prestes a se afogar, quando São Bento ordenou a São Mauro, seu fiel discípulo, que corresse prontamente para retirá-lo. Fiado na palavra de seu superior, Mauro parte sem hesitar, sem se deter nas dificuldades da empresa; e cheio de confiança na ordem recebida, caminha sobre as águas com tanta firmeza como sobre a terra e retira Plácido do sorvedouro onde ele ia ser abismado. A quem atribuirei um tão grande milagre: à força da obediência ou à da ordem? Grande questão, diz São Gregório, entre São Bento e São Mauro. Digamos porém para decidir, que a obediência dá graça para cumprir o efeito da ordem; e que esta confere graça para dar eficácia à obediência".




São Bento, um dia, mandou o impossível a um corvo. A história é interessante. Ei-la: um inimigo do santo, querendo dar-lhe a morte, enviou-lhe, a modo de esmola, um pão envenenado. São Bento agradeceu pela esmola e logo percebeu o veneno. Na hora da refeição, estando à mesa, um corvo, que tinha o costume de vir dum bosque vizinho receber pão da mão do santo, aproximou-se como sempre. São Bento atirou-lhe o pão envenenado e lhe disse: Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, leva este pão e joga-o onde ninguém o possa encontrar. O corvo então abre o bico desdobra as asas e se põe a voltear em torno do pão, crocitando fortemente; tudo isto para dizer que ele, sem dúvida, queria obedecer mas não podia fazê-lo. O homem de Deus, insistindo em sua ordem, diz: Leva-o, leva-o sem medo e vai lançá-lo onde ninguém o possa achar. O corvo tomou enfim o pão e, levando-o, partiu. Três horas depois ele voltou sem o pão envenenado, que lançara fora, e recebeu da mão do homem de Deus o pedaço de pão habitual.




A Segunda Coluna




A segunda coluna do edifício é o silêncio. À primeira vista parece bastante estranho que surja uma instituição para disciplinar os homens ensinando-os a se calarem. Naturalmente não se saberia chegar a tanto e, todavia, a graça que criou as instituições monásticas produziu nas almas um tal recolhimento em Deus, que daí resultou sem custo o silêncio. O homem que fala a Deus, o homem que, interiormente, escuta Deus falar-lhe, não tem absolutamente dificuldade em guardar o silêncio. Se parece que ele perde alguma coisa não conversando de modo nenhum com os seus semelhantes, ganha infinitamente mais conversando com Deus. Se pela palavra entramos em comunicação com os homens, pela oração nós nos relacionamos com Deus; e o que se ganha na companhia de Deus é completamente superior ao que nos poderia dar a companhia dos homens.




O silêncio se torna então um rico tesouro, e é o pensamento de São Bento quando escreve a expressão gravitas silentii. Se traduzirdes: gravidade, importância, riqueza do silêncio, tereis expresso o pensamento do santo legislador.




Depois disto, não se terá dificuldade em compreender esta sentença da Regra: Os monges devem em todo o tempo aplicar-se a guardar o silêncio, mas sobretudo durante a noite: Omni tempore silentio debent studere monachi, maxime tamen nocturnis horis.




Silentio studere, aplicar-se a nada dizer, eis aí um tipo de aplicação inteiramente novo. Os antigos monges haviam feito nisto tais progressos que tinham inventado sinais por cujo meio comunicavam os seus pensamentos quando era necessário, sabendo que ganhariam sempre e cada vez mais em não abrir absolutamente a boca. É a doutrina do Espírito Santo que, pela boca do apóstolo S. Tiago Menor, nos diz: "Cometemos todos muitas faltas, mas quem não as comete em palavras, é um homem perfeito".




A Terceira Coluna




Humilitas entre os Romanos queria dizer baixeza; humilis domus para Horácio significava uma casa pobre. A Igreja, apoderando-se da língua latina enriqueceu-a singularmente com uma quantidade de expressões, e entre outras a palavra humilitas, com a qual ela designou esta grande e bela virtude que, despojando-nos do orgulho, nos torna tão caros a Deus: a humildade.




É a terceira coluna do edifício beneditino. A quem perguntasse a São Bento qual das três colunas ele julgava a mais necessária, o incomparável patriarca teria respondido com Santo Agostinho: a humildade. E a quem perguntasse uma segunda e terceira vez qual a mais necessária, como Santo Agostinho, ele teria respondido sempre: a humildade.




É manifesto que São Bento atribuía a esta virtude um valor inestimável. Ele a ensina com uma complacência bem acentuada; faz dela, por assim dizer, um tratado todo especial, o capítulo VII da Regra.




A primeira das obras de São Bernardo é precisamente o comentário deste capítulo VII da Regra de São Bento. É neste tratado que o ilustre abade de Claraval deu, da humildade, a definição que todos os mestres adotaram por unanimidade: "A humildade é a virtude que nos faz desprezar-nos em conseqüência de um conhecimento sumamente verdadeiro de nós mesmos".




São Bento enumera doze graus de humildade. Eis aqui seu resumo:




1. Ter continuamente diante dos olhos o temor de Deus e, por conseguinte, manter-se prevenido contra todos os pecados e, notadamente, contra a vontade própria;




2. Renunciar a seus próprios desejos, em conseqüência da renúncia à própria vontade;




3. Submeter-se com toda a obediência a seu superior por amor de Deus;




4. Aceitar em paz as ordens difíceis, até os maus tratos e as injúrias;




5. Descobrir simplesmente ao superior os pensamentos mesmo maus que vêm à mente;




6. Contentar-se com o que há de mais vil e abjeto;




7. Considerar-se, no fundo do coração, como o último de todos;




8. Seguir simplesmente a regra comum e fugir de toda a singularidade;




9. Guardar o silêncio até que seja interrogado;




10. Não ser absolutamente pronto para rir;




11. Falar suavemente, gravemente, com poucas palavras bem razoáveis;




12. Trazer a humildade no coração e em todo o seu exterior, baixando os olhos, como um criminoso que se considera a ponto de ser chamado ao temível tribunal de Deus.




Por aí se vê que São Bento, por assim dizer, faz decorrer da humildade toda a perfeição monástica.




CAPÍTULO X




A Oração




O corpo se alimenta em parte pela respiração, e em parte pelo pão de cada dia. A alma tem também necessidade de alimento: o seu pão é a Eucaristia; sua respiração é a oração. Também Nosso Senhor diz: É preciso rezar sempre. E São Bento nada recomenda tanto a seu discípulo como a oração.




A prece é o próprio âmago da vida monástica: o ofício divino é a sua expressão mais solene; mas a isto é mister acrescentar uma oração interior que deve, sem cessar, fazer subir para Deus todos os atos da vida religiosa. "Tudo o que empreenderes, diz São Bento, pede a Deus, por uma insistente oração, que Ele mesmo queira levá-lo a cabo. Quidquid agendum inchoas bonum, ab eo perfici instantissima oratione deposcas".




Há, contudo, certas circunstâncias em que São Bento recomenda mais particularmente a oração. Se um religioso se ausenta do mosteiro, ele deve pedir as orações de toda a comunidade; e as pede igualmente quando volta; se se apresentam hóspedes, é preciso rezar ao recebê-los antes mesmo de os cumprimentar. Durante a Quaresma, é preciso juntar as lágrimas à oração: Orationi cum lacrymis operam demus.




Se no mosteiro se acha um religioso incorrigível, o Abade, após ter esgotado todos os recursos que lhe podem fornecer a caridade, as reprimendas, as punições, recorrerá, por fim, à oração. – "Se ele vê que, com toda a sua diligência, nada conseguiu, que empregue ainda o que é maior, a saber a sua oração e a de todos os irmãos com ele, a fim de que o Senhor, que tudo pode, opere a salvação deste irmão enfermo. Adhibeat etiam (quod majus est) suam et omnium fratrum pro eo orationem, ut Dominus, qui omnia potest, operetur salutem circa infirmum fratrem".




Outra recomendação de São Bento, a respeito da oração, é a de oferecê-la a Deus pelos nossos inimigos e isto no amor de Jesus Cristo. In Christi amore pro inimicis orare.




Enfim, para dar uma idéia mais completa da doutrina de São Bento sobre a oração, citamos o capítulo XX da Regra:




Do Respeito que deve acompanhar a Oração




"Se, quando queremos pedir algum favor aos poderosos, não ousamos fazê-lo a não ser com humildade e respeito, quanto mais, ao dirigir-nos a Deus, soberano Senhor de todas as coisas, devemos suplicar-lhe com profunda humildade e devoção pura. E saibamos que seremos atendidos não pela multiplicidade de palavras, mas pela pureza do coração e pelas lágrimas da compunção. E para isto a oração deve ser curta e pura, se não for prolongada por uma moção particular, uma inspiração da graça de Deus".




Assim pensava, assim rezava São Bento, cujo coração, segundo o testemunho da própria Virgem Santíssima, era totalmente cheio de Deus, erat cor ejus totum plenum Deo.




CAPÍTULO XI




O Ofício Divino




Há na Igreja da terra uma oração solene e sagrada, que faz eco ao tríplice Sanctus dos Serafins do céu, uma oração que São Bento chama uma obra divina, a obra de Deus: Opus Dei.




É a prece das sete horas místicas do dia, desenrolando-se após uma longa oração noturna: é a obra capital dos religiosos beneditinos, a qual não cede a nenhuma outra, aquela à qual devem ceder todas as outras. Nihil operi Dei praeponatur.




A cada uma destas horas o filho de São Bento é, pela sua Regra, chamado ao coro para oferecer aí os seus louvores ao seu Criador. His temporibus referamus laudes creatori nostro.




Ao primeiro sinal do ofício, é preciso imediatamente deixar tudo e dirigir-se ao coro, com uma religiosa solicitude, uma gravidade modesta e uma alegria incomparável de ser chamado a unir-se ao coro dos anjos, para começar aqui em baixo a oração que se aperfeiçoará, sem jamais terminar, nos céus.




Não contente em chamar os seus irmãos ao ofício, São Bento prescreve punições para os que chegarem atrasados ao mesmo.




Começado o ofício, é preciso manter-se nele com uma atenção mais intensa à presença de Deus. Sabemos o que São Bento ensina sobre o exercício da presença de Deus, e como ele recomenda a seu discípulo estar sempre atento; nós não nos espantaríamos de que ele dê uma advertência toda especial para o tempo do ofício divino: Ubique credimus divinam esse praesentiam, et oculos Domini in omni loco speculari bonos et malos; maxime tamen hoc credamus, cum ad opus divinum assistimus.




Considerando que os religiosos no coro fazem na terra o ofício dos anjos no céu, São Bento quer que eles se tornem atentos à presença dos anjos. Consideremus qualiter oporteat nos in conspectu divinitatis et angelorum esse.




O salmista havia dito: "Na presença dos anjos, Senhor, cantar-Vos-ei salmos".




Ainda existe um conselho muito interessante e importante de São Bento relativamente ao ofício divino: "Estejamos na salmodia de tal modo que a nossa mente concorde com a nossa voz. Sic stemus ad psallendum, ut mens nostra concordet voci nostrae".




Bem antes de São Bento, dissera São Paulo: "Rezarei com o coração; cantarei também com a inteligência".




Assim a voz, o coração, a inteligência, tudo o que está em nós, tudo o que nós somos, deve contribuir para o louvor de Deus. A voz canta, o coração ama, o espírito saboreia, anima, vivifica a salmodia e a torna digna de Deus.




É bom cantar, é bom amar: mas cantar e amar com inteligência é a perfeição; e esta é exigida quando se trata do ofício divino. O religioso na terra que tem de unir-se ao ofício do anjo no céu, deve esforçar-se em se elevar até o anjo com as duas asas da inteligência e do amor.




Portanto, é preciso saber.




Quando os irmãos têm tempo livre após o ofício da noite, devem também empregá-lo no estudo dos salmos e das lições. São Bento assim o quer.




É preciso saber. Toda a tradição beneditina consiste nisso. Essa também é a razão de tantos trabalhos, comentários, explicações, glosas sobre os salmos e a Escritura, que ocuparam os filhos de São Bento em todos os séculos. Eles queriam compreender, saber, a fim de cantar com inteligência e de glorificar mais Aquele que é ao mesmo tempo luz e amor, verdade e caridade.




CAPÍTULO XII




A Liberdade de Espírito




Ao escrever estas palavras, a liberdade de espírito, sentimos a necessidade de dar a sua definição. Em nossos dias se tem abusado tanto da palavra liberdade que se torna indispensável tomar as maiores precauções para não cair em qualquer um dos preconceitos ou erros modernos, enfeitando-se com o belo nome de liberdade.




Ora, por liberdade de espírito entendemos o estado duma alma, a qual nada impede em seu impulso para a perfeição, em seu vôo para Deus.




São Bento quer que o seu discípulo tenha a alma bem à vontade, o espírito inteiramente em paz. Se ao homem exterior ele impõe uma disciplina exata e uma regra à primeira vista severa, o homem interior, por sua vez, é posto em liberdade.




Aí há um grande trabalho, e São Bento não faz nenhuma dificuldade em reconhecer que os começos são um pouco penosos. Via salutis non nisi angusto initio incipienda. É o trabalho indispensável para desembaraçar a alma dos entraves que ela trouxe consigo ao vir do mundo. O pecado, e sobretudo o hábito do pecado, o desregramento das afeições, as miseráveis exigências duma vida demasiado sensual, são outros tantos obstáculos à santa liberdade de um filho de Deus. Não é sem custo que se se desprende de tantos entraves; mas à medida em que deles alguém se desembaraça, a dificuldade diminui e, depois, ela desaparece rapidamente, e o monge, feito obediente, não encontra mais na Regra nada de pesado, nada de difícil. Nihil asperum, nihil grave. Talvez, ao começar, ele mais se arrastava do que andava; contudo avançava, e isso é que é importante.




Desde a primeira hora, São Bento pede que seu discípulo esteja de boa vontade: Admonitionem pii patris libenter excipe. Quer que ele esteja alerta, bem decidido. Se Deus lhe clama: Quem quer a vida eterna? Ele Lhe responde: Eu!




Como caminhará aquele que assim começou? Após a dificuldade da primeira hora o caminho de Deus se alarga e, aumentando no discípulo de São Bento a boa vontade, ele antes corre do que anda. São Bento o diz claramente, e só no Prólogo da Regra, encontramos até três vezes este termo correr. "Se queremos chegar ao céu, diz o santo patriarca, não chegamos aí senão correndo: Nisi currendo minime pervenitur"_. E mais adiante: "É preciso correr e fazer agora o que nos deve aproveitar para a eternidade. Currendum et agendum est modo quod in perpetuum nobis expediat". Pelo fim do mesmo Prólogo, São Bento repete ainda uma vez sua palavra favorita: "Com o coração dilatado, diz ele, por uma inenarrável doçura de amor, corre-se no caminho dos mandamentos de Deus: Dilatato corde, inenarrabili dilectionis dulcedine, curritur via mandatorum Dei".




São Gregório Magno refere um fato extremamente interessante que citamos aqui, pois ele tem a sua significação. Havia na Campânia um solitário chamado Martinho. Morava numa caverna, estava preso a ela por uma cadeia de ferro, duma parte ligada a seu pé e de outra chumbada ao rochedo da caverna. São Bento soube do fato deste solitário e lhe mandou dizer: "Se és servo de Deus, não deves estar retido por uma cadeia de ferro, mas pela cadeia de Cristo: Si servus Dei es, non teneat te catena ferri, sed catena Christi". O solitário obedeceu logo à palavra de São Bento: com efeito, a cadeia de Jesus Cristo lhe foi suficiente, pois, após ter deixado a sua cadeia de ferro, continuou do mesmo modo prisioneiro em sua caverna.




São Bento nos clama a todos a mesma coisa: Non teneat te catena ferri: deixai cair as cadeias de ferro de vossos pecados, de vossas paixões, de vossas vontades; há uma cadeia mais salutar, mais suave, mais leve, é a cadeia de Cristo: Catena Christi. Todas as outras são fardos, ela é porém a própria liberdade; nós não a levamos, ela é que nos leva. Portanto, como ela é desejável!




Quando o discípulo de São Bento encontrou este tesouro, todas as observâncias se cumprem sem custo nenhum: Absque ullo labore. O segredo desta facilidade no bem é que se aprendeu a amar o rei pelo qual se combate. Age-se então pelo princípio do amor de Jesus Cristo: Amore Christi. Este novo amor fez nascer um homem novo que, com hábitos novos, caminha livremente para o céu: Consuetudine ipsa bona. Então as virtudes cristãs e monásticas enchem o coração com uma suavidade incomparável: Delectatione ipsa virtutum. Como é fácil, depois disso, correr no caminho: Currendum et agendum est modo quod in perpetuum nobis expediat!




O discípulo não corre sozinho; São Bento está com ele, e vela com uma solicitude incomparável para que nada venha perturbar ou contristar o pacífico habitante da casa de Deus. Nemo perturbetur neque contristetur in domo Dei. No exterior nada perturba o monge fiel, pois tudo é muito bem regulado na casa de Deus. No interior nada existe que o possa entristecer: perto dele há um pai sempre vigilante, e um Deus que ama sem jamais interromper o ato divino pelo qual nos ama.




Havia saboreado este ensinamento, o autor que escrevia o seguinte:




"Ó Senhor meu Deus, livrai-me de minhas paixões e curai o meu coração de todas as suas afeições desordenadas, a fim de que, curado interiormente e bem purificado, eu me torne apto para amar.




É uma grande coisa o amor: é um bem inteiramente grande. Só ele torna leve qualquer fardo; à própria amargura ele dá doçura e gosto. O amor quer estar no alto: quer ser livre. Corre, voa, rejubila-se: é livre, nada o retém. Se alguém ama, este compreende".




CAPÍTULO XIII




Um Testemunho




A liberdade de espírito é um dos bens que devemos ao Cristianismo; São Paulo ensina-o formalmente: "Onde está o Espírito do Senhor, diz, aí está a liberdade". E noutra passagem: "Vós fostes chamados para a liberdade, meus irmãos".




Esta mesma liberdade é um dos caracteres do espírito de São Bento. Eis a este respeito um testemunho particularmente interessante. Nós o devemos ao sábio e piedoso Pe. Faber, do Oratório de Londres:




"Onde reina a lei de Deus, onde sopra o Espírito de Cristo, aí existe a liberdade. Ninguém pode ler os escritos espirituais da antiga escola de São Bento, sem notar com admiração a liberdade de espírito pela qual a sua alma estava penetrada. É precisamente o que nós temos o direito de esperar de uma Ordem cujas tradições são tão respeitáveis. Seria um grande bem para nós possuir um maior número de exemplares e de traduções de suas obras. Santa Gertrudes é um belo exemplo disso. Ela respira em todo o lugar o espírito de São Bento... O espírito da religião católica é um espírito fácil, um espírito de liberdade; e aí estava sobretudo o apanágio dos ascetas Beneditinos da velha escola. Os escritores modernos procuram circunscrever tudo, e este deplorável método fez mais mal do que bem".




CAPÍTULO XIV




A luz em todas as coisas




No capítulo XLI da Regra, São Bento, ao tratar da hora das refeições, estabelece que na Quaresma se jantará depois das Vésperas, mas de tal modo que a refeição termine à luz do dia. Após ter disposto todas as coisas para que assim se façam, acrescenta, para terminar todo o capítulo, esta reflexão: Que tudo se faça com luz: Cum luce fiant omnia.




Dizíamos num capítulo precedente: É preciso saber! E nós cremos poder aproximar esta palavra da máxima de São Bento: cum luce fiant omnia. Que tudo se faça com luz.




O espírito dos santos, formado na escola do Espírito de Deus, é como Este, ao mesmo tempo uno e múltiplo. Lemos no livro da Sabedoria que o Espírito Santo, Espírito de inteligência é uno e múltiplo: Spiritus intelligentiae Sanctus, unicus, multiplex. Igualmente o espírito dos santos é uno, porque se recolhe todo em Deus e na Sua santa vontade; ele é múltiplo, porque na sua unidade abarca a extensão imensa dos caminhos de Deus e todo o conjunto tão harmonioso dos meios de chegar a Ele.




Quando São Bento, falando das refeições, diz que tudo se faça com a luz do dia, ele vai muito além. À luz do dia se sobrepõe a luz espiritual que Deus infunde nas almas.




Estas também têm a sua luz e a sua refeição. Alimentam-se com a verdade eterna, desalteram-se na fonte da vida. A hora abençoada destas refeições celestes é a da oração, da salmodia, do Sacrifício eucarístico, da comunhão e mais tarde será a da visão de Deus no céu.




Ora, em todas estas coisas, há uma luz que São Bento deseja para seus filhos. É preciso saber! As trevas têm algo de entristecedor, de repugnante, de terrificante. Mesmo sob o ponto de vista material, São Bento não quer que haja trevas no mosteiro: uma lâmpada deve iluminar o dormitório até o nascer do dia. Com mais forte razão, é preciso luz para as almas. A meia luz não basta; a fé procura compreender sempre melhor: Fides quaerit intellectum, é a palavra de Santo Anselmo. É preciso luz plena e total. Nosso Senhor o disse numa parábola: Tende na mão uma tocha acesa. E São Paulo dizia e escrevia a seus fiéis: Sois filhos da luz, do dia claro: não filhos da noite nem das trevas.




Quando, rodeado de seus irmãos, São Bento cantava o Ambrosiano, o hino de Santo Ambrósio: Splendor paternae gloriae, como deveria saborear Aquele que é a luz, que nesse hino encontra-se denominado Plena aurora; Aurora totus! Para nós plena aurora, para os anjos todo luz no seu zênite.




Arrebatado de alegria nos esplendores desta aurora, ele saboreava a doçura das iluminações divinas, e esperando o grande dia da eternidade, ele penetrava já nas profundezas das claridades superiores. "Enquanto os irmãos dormiam, São Bento, de pé junto à janela, estava em oração antes da hora das Matinas. Levantou então os olhos e, de repente, viu descer do alto uma luz tão grande que todas as trevas foram dissipadas por um esplendor bem superior à luz do dia. E neste esplendor, que não era da terra, o santo viu o mundo inteiro ser trazido diante dele e condensado como debaixo de um só raio de sol".




Quando, depois de tais graças, retornava para junto de seus irmãos, a fim de regular até as coisas mais comuns da vida, São Bento dizia com um acento muito profundo: Que tudo se faça com luz: Cum luce fiant omnia.




É preciso notar que estas harmonias maravilhosas que enchiam a alma do santo, estendiam-se até à forma com a qual se revestia o seu pensamento. Como trabalhada, poetizada por uma inspiração celeste, a expressão tomava a forma dum verso jâmbico duma beleza perfeita:




Cum luce fiant omnia.




Verdadeiramente, seria bom, seria agradável ler assim, ler freqüentemente com o espírito dos santos.




CAPÍTULO XV




A glória de Deus em todas as coisas




Leiamos mais uma vez com o espírito de São Bento. Nós o ouvimos prescrevendo a luz em todas as coisas: escutemo-lo cantando a glória de Deus em tudo.




No capítulo LVII da Regra, São Bento edita diversas prescrições aos artesãos, aos artistas que se podem encontrar no mosteiro. Ele quer que as obras deles sejam vendidas abaixo do preço fixado entre os seculares e, querendo dar à lei que estabelece um fim inteiramente sobrenatural, termina com esta admirável sentença: "A fim de que em todas as coisas Deus seja glorificado: Ut in omnibus glorificetur Deus".




Certo dia, uma criança sem instrução tinha lido alguns capítulos da Regra de São Bento. Maravilhada com eles, manifestava seus sentimentos com estas palavras: Como isto leva diretamente a Deus!




Sim, diretamente a Deus! Aí está todo o ensinamento de São Bento. Diretamente a Deus, e é preciso não somente andar, mas correr para o Senhor. O santo diz isto por três vezes, desde o prólogo da Regra, e o repete ainda no último capítulo. Assim diz: "Correndo em linha reta cheguemos até o nosso Criador: Recto cursu perveniamus ad Creatorem nostrum".




Assim, bem determinado o objetivo: Deus, e o meio bem definido de o atingir: a corrida, compreende-se que São Bento queira que Deus seja em tudo glorificado. Ut in omnibus glorificetur Deus.




Nossos pais atribuíam a esta bela máxima um valor inestimável. Eles a tinham no coração, a exemplo de seu Pai: ela lhes era muito familiar, e de bom grado a escreviam somente com as iniciais latinas:




U. I. O. G. D.




Portanto, digamos com São Bento: Que em todas as coisas Deus seja glorificado!




Com ele corramos!




Com ele diretamente para Deus!



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'A Lógica da Criação'


Jesus, oculto na Hóstia, é tudo para mim




“Se não fosse a Santa Comunhão, eu estaria caindo continuamente. A única coisa que me sustenta é a Santa Comunhão. Dela tiro forças, nela está o meu vigor. Tenho medo da vida, nos dias em que não recebo a Santa Comunhão. Tenho medo de mim mesma. Jesus, oculto na Hóstia, é tudo para mim. Do Sacrário tiro força, vigor, coragem e luz. Aí busco alívio nos momentos de aflição. Eu não saberia dar glória a Deus, se não tivesse a Eucaristia no meu coração.”



(Diário de Santa Faustina, n. 1037)

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